sexta-feira, 5 de julho de 2013

AVISO: Contagem regressiva, fechamento do blog por tempo indeterminado...


CONTAGEM REGRESSIVA...

 
AVISO: Texto dramático. Um desabafo da minha parte...
 
Sei que ninguém vai ler, mesmo assim...
 
            Amigos e amigas, a todos que neste último ano devo agradecimentos por terem compartilhado comigo suas opiniões e seu tempo, digo a todos vocês, meu sincero OBRIGADO. Esta será a última, a minha última postagem no meu blog Bar Toca dos Gatos, a última antes do momento mais delicado da minha vida, a última postagem feita em São Paulo, capital. Esta contagem que venho fazendo há alguns meses, mesmo a contra gosto, marca o momento em que estarei mudando de cidade, indo morar em Pereiro, interior do Ceará. Muitos vão dizer que mudanças são boas, que tudo vai dar certo, que as coisas na internet vão continuar como estão, entendo perfeitamente. Mas o fato é que muito me dói estar vivenciando não um momento que demonstra ser acertado, mas um que mostra ser incerto e que me distanciará daquilo que tanto tentei conquistar com minhas próprias forças. Posso passar dias, meses, anos sem saber se um dia vou voltar a rever a cidade em que nasci e se um dia irei finalmente conquistar o meu espaço. As pessoas pouco percebem esses melindres na vida das outras pessoas, que muitos se esforçam e pouco ou nada conseguem. Eu sou uma dessas pessoas, que tinha muito pouco, quase nada, e que mesmo tendo conseguido a atenção de tão poucas pessoas, me sinto honrado em ter conhecido vocês, tendo agradado-os ou não, sei que não sou perfeito. Houve momentos sublimes como conhecer, mesmo que somente pelo facebook, verdadeiros autores de livros brasileiros e outros aspirantes a escritor que muito me inspiraram. Saber que vocês existem e ter tido vocês tão perto aumentou minha paixão pelo Brasil, país nosso que tanto já mostrou uma face ruim a maioria da população. Por vocês é que eu acredito nesse país a qual eu não tive a sorte de realizar um grande sonho, sendo eu um sonhador desvairado e de pensamentos duvidosos do ponto de vista realista, do qual não sou merecedor.
 
            Estou indo, indo para o interior do Ceará. Mesmo indo morar numa cidade razoável, com recursos mínimos, o lugar que me espera está a seis quilômetros do centro da cidade, numa via de terra, onde tem energia e água encanada, mas não telefone, nem internet. Isso não cortará por completamente a minha relação com a internet, mas me afastará o suficiente para que eu não possa escrever as minhas histórias, me interar de todo o conteúdo novo, etc. Não é nada demais, repito, para a maioria das pessoas. Eu apenas tentei apostar num negócio que não foi muito lucrativo ou chamativo como é a literatura. Eu até queria poder investir mais nesse nicho e conseguir mais, mas infelizmente não sou esse tipo de pessoa, antes preciso de espaço, ter uma direção clara e ir seguindo. A vida, por outro lado, mostrou justamente o contrário. Há meses que sei que esta mudança brusca, de um centro urbano para uma cidade interiorana simples, já estava decidida, e isso tem sido pesado, exaustivo e deprimente pra mim. Queria terminar com isso logo e dar um fim ao pesadelo que me amedronta. Ainda agora, quando no momento em que estava escrevendo, a ficha não havia caído, não tinha conseguido compreender toda a complexidade de deixar definitivamente a cidade natal para morar em outra completamente diferente, sem grandes parques, sem shoppings, sem livrarias, sem grandes recursos culturais, sem pessoas conhecidas, sem hospitais razoáveis...
 
            E pior de tudo nem é isso, a pior parte é saber que só estou indo porque sou verdadeiramente um fracasso, alguém que não chegou nem perto de poder continuar vivendo onde nasceu porque não conseguiu o que mais precisava: dinheiro. Em mais de um ano com um blog feito praticamente com conteúdo que eu mesmo criei, o máximo que consegui acumular no Google Adsense não chega a $3 dólares, isto quando o mínimo para se dar baixa no acumulado é de $100. Uma pessoa precisa pagar luz, água, telefone, internet, mercado e outros itens do dia-a-dia e nem em um ano eu consegui mais de $3 dólares. Este foi um dinheirinho acumulado muito difícil e que muito provavelmente nunca irei ver a cor. Definitivamente, eu sempre fui um zero a esquerda quando o negócio é dinheiro, às vezes até parecendo que ele cai na minha mão pra ser gasto e nunca mais voltar. É incrível, dificilmente sobra e quando sobre nunca é o suficiente pra nada, nem pra ter uma vida social. Aliás, muitos já sabem, mas reintegro, o computador que uso pra acessar a internet não é meu e nem tenho como pagar pela internet, tenho sorte de ter ganho um computador velho que chegou em casa com um Windows 98 e que ainda continua me ajudando a escrever meus textos em pleno 2013, quando se diz que computador é oficialmente um bem de consumo das massas. Que ironia!
 
            Contudo, ironia mesmo é não ter certeza se um dia poderei ver um Crônicas dos Senhores de Castelo livro 3 – Maré Vermelha. Tudo havia começado com um simples texto que não tinha pretensões de continuar e que hoje se tornou a coisa mais importante do mundo para mim, me mostrando que eu posso escrever uma história inteira, mesmo que ninguém venha a reconhecer meus textos como tal. Eu não sei como, eu apenas me envolvi e comecei a desejar mais, a ampliar o multiverso em todas as direções, ainda que os personagens que centralizam a trama nunca tenham, de fato, chegado a serem Senhores de Castelo. Talvez tenha sido o medo, a incerteza de que eu realmente conseguisse agradar mais fãs da saga e sem perceber escrevi histórias com personagens que queriam muito alcançar o famigerado título de nobreza, mesmo que nunca fossem bons o suficiente para isso. Os autores ainda fazem mistério sobre as provas que determinam quem será ou não um Senhor de Castelo e, por precipitação necessária, cheguei a inventar minha própria maneira de ver os 13 dias. Ainda haverão mais três livros contando com Maré Vermelha... e talvez nunca chegue a vê-los.
 
            Quando estiver em minha nova morada, ainda terei de descobrir o que eu vou fazer da minha vida. Já passei pelos desenhos do Design de Interiores (curso técnico, dois semestres, não terminado), das questões empresariais em administração (curso técnico, um semestre, não concluído), pelo básico da informática e pela manipulação da madeira na Marcenaria (curso básico de três meses), além de ter passado o último ano numa intensa relação com a língua portuguesa. Enfim, pode acontecer de tudo e não acontecer nada. Terei de aprender a fazer caminhadas mais longas das que estou acostumado a fazer normalmente em São Paulo e tentar conhecer um pouco mais sobre a terra, plantar e colher os frutos, cuidar de animais e talvez até de abelhas. Não sei, não sei se vou conseguir ser bom no que eu for fazer ou se eu vou conseguir ganhar dinheiro ou apenas comer o que eu conseguir plantar. Definitivamente eu não sei... Sei apenas que isso será uma quebra de realidade tamanha e que tentei de todas as forças me interessar pelo lugar nos últimos meses. Deus sabe como eu tentei! Mas o nó continua na garganta, não desce. Quando penso no que eu vou fazer para acompanhar meus pais e morar na mesma cidade em que eles nasceram e cresceram sem grandes oportunidades, só consigo perceber que estou prestes a chorar, que eu não estou, de forma alguma, contente com isso. Estou muito chateado. No momento em que meu pai disse que queria enviar meu computador na frente, cerca de um mês antes, eu juro, estava passando mal. Só melhorei quando minha mãe me disse que não seria o meu computador. Então eu tive de escolher, ou meu computador ou minha TV, evidentemente que escolhi a TV. Tenho passado momentos muito chatos, sem ter como assistir os programas que costumava assistir, tendo que usar os televisores dos outros, sem conseguir me concentrar em algo, em um ponto de foco que pudesse me distrair da minha imaginação que só tem me irritado. Eu não aguento mais continuar desse jeito, imaginando mundos e fundos como se fosse tudo simples de se fazer, como se nada disso pudesse gerar algum custo. Não! Chega!
 
            De certa forma, a viagem se torna um alívio, um respiro das minhas inquietações, dos meus medos, da desgraça que é ser sonhador e não ter opções. Estou ficando louco, demente de mim mesmo, sem conhecer o que é conseguir ser vivo de verdade, morto dentro de uma casca sorridente e que não pode transmitir isso a outras pessoas porque elas também tem seus problemas e não podem desviar sua atenção deles. Sinto muito se lhe incomodo, caro leitor ou leitora, esta é minha única verdade. Não acredito no amor, não acredito em milagres, e por vezes não acredito em deus. Religiosos teimam em dizer isso e aquilo, mas quando deveria acontecer algo, nada de extraordinário acontece, a vida segue normalmente e eu continuo sofrendo com meus problemas. Deus não é isso, tenho certeza! Por sorte, sei que Deus tem seus mistérios e que muito do que é dito parte da ignorância dos homens, de seres que sequer viram a face de Deus. Não sei qual o propósito da vida, no entanto, entendo que aqui estou por causa da evolução necessária a toda consciência para adquirir seu mérito. Só não sei a fim de que...
 
            Um dia talvez eu entenda. Talvez não. Sei que levarei no ônibus que me levará pela BR116 ao meu novo lar, dois livros muito preciosos para mim: Crônicas dos Senhores de Castelo – Livro 2: Efeito Manticore e Filhos do Éden – Livro 1: Herdeiros de Atlântida. E sabe por quê? Por que eu não os comprei, eu os ganhei de presente de dois amigos que mal me viram nos últimos anos. Se isso não é amizade verdadeira e desinteressada, eu não sei o que é! Eu ainda não comecei a ler Filhos do Éden, pois estou justamente resguardando-o para a viagem, para me distrair do desgosto de ter que abandonar tudo o que já vivi pelo incerto e obscuro. OBRIGADO Lincoln, OBRIGADO Wendel, nunca irei me esquecer disso. OBRIGADO aos dois.
 
            Com a passagem em mãos, tudo o que me espera é a casa da minha avó materna que faleceu no começo deste ano, ironicamente, pouco tempo depois de minha mãe revê-la novamente após cerca de quinze anos (na última vez meu irmão mais novo tinha dois anos e hoje se encontra com dezessete). Minha avó, que conheci quando ainda era muito pequeno, já estava cega e não poderia aguentar muito mais, mas persistiu a tempo de rever a filha que mesmo na era digital, de internet e celulares, mandava cartas para saber notícias dela. Demorava um mês ou mais para a carta chegar e mais um ou dois meses para ser respondida. Mesmo assim, minha mãe, que pouco aprendeu a escrever sem ter uma educação razoável, esperava ansiosamente para ler as cartas que a minha tia enviava, uma vez que minha avó não aprendeu a ler nem escrever. No Ceará os tempos nem sempre são vindouros, há tempos em que a falta de chuva castiga muito, sem deixar uma plantinha ficar verde, e há tempos em que é a chuva que assume o chicote, transbordando açudes e alagando as áreas próximas aos reservatórios de água. Em 2009, por volta do mês de maio, houve uma enchente dessas. E agora, em 2012 e começo de 2013, a seca castigou novamente a região da serra jaguaribana, dando o braço a torcer somente nos últimos meses, com chuvas que não chegam a repor completamente as reservas de água, mas que podem gerar um pouco de milho ou feijão, o que por ventura alegra este povo lutador e determinado. Meu pai, que quer morar lá principalmente por causa do clima que melhoraria suas câimbras, quer muito voltar a mexer com a terra como na sua mocidade. Para ele Pereiro é um tesouro brilhante e milagroso, sem nem ao menos perguntar a mim, que estou fazendo o favor de acompanhá-lo junto de minha mãe, se estou feliz com isso...
 
            Nasci em cidade grande, até então morando sempre na mesma casa na periferia de São Paulo. Nunca usufrui de nenhuma vantagem que fosse dada somente por esta cidade, normalmente porque os preços são caros ou os locais distantes. Mas vendo o lugar para onde vou, tendo que fazer o caminho inverso do emigrante sonhador que vem para cá a procura de emprego, me sinto inteiramente perdido. Não deveria a vida seguir seu rumo para um lugar melhor do que aquele em que estávamos antes? Agora vejo que não. Que existem pessoas que tiveram sorte de conseguir chegar aonde chegaram com seu próprio esforço, enquanto outras, perdidas e alienadas, não tem escolha senão a de continuar onde sempre estiveram, sem sonhos, sem melhoras, sem nada para alimentar seus desejos. Isso é triste...
 
            Não posso prometer nada, não tenho ideia se terei condições de ter acesso à internet, se o pouco dinheiro que meu pai tem guardado será o suficiente para nos sustentar, se meus irmãos que ficarão em São Paulo conseguirão viver bem quando nossa família se separar... Eu não sei. E não saber é o que mais me dá medo.
 
...
 
            Num adendo ao texto, pois este fora escrito em mais de um dia, a viagem já está confirmada. No dia 29/06, as passagens foram compradas, não há mais volta... O caminho de pedras logo será percorrido e terei que obrigatoriamente deixar-me cair por terra, e entender que estarei lá e não mais aqui.
 
            Chorei... Sim, chorei... Tentei a todo custo aguentar a tristeza que vinha me consumindo. Mas depois de uma breve discussão com meu pai, ignorante e negligente, que quer impor a sua vontade a todo custo, sem dar o braço a torcer para pelo menos me perguntar “tudo bem pra você?”. Não! Ele está cego em seu próprio mundo, eis o mal de estar envelhecendo, me parece que sua imaginação finalmente aflorou e o está deixando desvairado, pressupondo de tudo antes do tempo como se tudo isso se concretizasse com facilidade. Pois bem, sou filho dele e também não vou mudar de ideia. Mas naquele momento de fervor de pensamentos, ele bateu no desktop do meu PC com muita força. Eu não sou rico e não tenho dinheiro para adquirir o bem material que eu quiser, sendo os de minha total preferência os livros. Minha vida nos últimos meses se resume ao que eu persisti em fazer no computador: escrever. Acredito que, pelas vias de fato, que pela clara evidência de que meu pai é um insensível diante da própria vida do filho, que eu não precise dizer que ele nunca leu algo que eu tenha escrito. Aliás, como semi-analfabeto, digamos assim, meu pai tem dificuldade em ler e lê muito raramente, nunca conheceu um livro de verdade e ainda por cima insiste em dizer que “sabe das coisas”. E então ele deu o golpe, pura e simplesmente por se sentir contrariado por não ter seus desejos aceitos de bom grado. Não liguei num primeiro momento, meu computador, meu velho e ultrapassado computador, estava desligado e demorei em religá-lo. Quando o fiz, estava atônito, diante de uma tela negra a qual não aparecia nada. Era possível? Tentei verificar os cabos, esperando ver ansiosamente a tela inicial da placa-mãe aparecer. Nada... Juntei forças e fui ao quarto dos meus pais, dizer o que precisava dizer: “Você conseguiu! Não sei como, você conseguiu quebrar o meu computador!” Me virei tentando voltar para meu quarto-sala, passando pela cozinha. Não aguentei... Era dor demais, e eu não havia feito o backup ainda! Desabei a chorar copiosamente. Estou tentando a todo custo me acostumar a ideia da nova morada, do novo lugar, do novo tudo, enfim, do rompimento total da minha realidade e a única coisa que me conforta é ter a possibilidade de continuar escrevendo, independente de poder compartilhar os textos. Eu não me aguentava, estava chorando e não sabia o que fazer. Meu pai, se sensibilizando, me prometeu que compraria um computador novo... Não era isso que eu queria, o que eu queria era pelo menos ter um backup das ínfimas coisas que eu tinha me empenhado a fazer no meu computador, recuperando-as de um jeito ou de outro, como o texto que está lendo agora. Por sorte, um pouco mais tarde ele voltou a funcionar normalmente e pude enfim respirar com alívio. Fiz o backup o quanto antes e estou mais sossegado.
 
            Muitos vão fazer como minha mãe e me dizer: “Não há males que não venham para o bem”. Decerto, eu entendo isso. Mas não tenho tido exatamente o melhor momento da minha vida. Primeiro um pendrive que para de funcionar, uma merda que me custou um dinheiro que eu não tinha! Quero dizer, que eu não devia ter gasto, deveria ter poupado para comprar outras coisas. Mas como eu fico um bom tempo no computador, é praticamente inquestionável que você tenha mais de um pendrive. Foi o que eu fiz e o usei por um bom tempo. Um dia, sem mais nem menos, ele para de funcionar e leva com ele vários arquivos que eu estava guardando nele – inclusive a imagem que fiz para o blog QUERO MEDO, o SINO DO MEDO. Novamente, por sorte, eu já havia enviado uma cópia por e-mail e ela ficou salva na caixa de saída. A imagem do sino foi alterada pelo dono blog, ficando ainda melhor. Imagine se eu não tivesse mandado?! Eletrônicos, ame-os ou deixe-os! E isso não é tudo...
 
            Posteriormente, o meu celular cujo carregador era uma bosta que não conseguia segurar a carga direito (um defeitozinho de fabricação bem do proposital), teve o carregador substituído por um que carrega diretamente a bateria e finalmente achava que poderia ter ele funcionando em sua normalidade sem me preocupar com a bateria. Não! Algo precisa acontecer! E com quem? Com quem não pode comprar um celular novo, claro! A bateria simplesmente começou a aquecer, descarregando rapidamente. Comprar uma nova? Ah, claro! Com o seu dinheiro? Não, não é... E eu não tenho dinheiro pra resolver isso. Felizmente meu pai já disse que não quer mais usar o chip da Claro dele, uma vez que ele usa o da Tim para se comunicar com os parentes e conhecidos do Ceará. Simplesmente tirei um dos dois chios dele e pus o meu. Por mais que eu não goste de falar ao celular, os poucos números armazenados na agenda são significativos e eu não os deixaria de lado.
 
            Como podem ver, quando não se tem muito, você começa a dar valor ao que tem, mesmo que no fundo isso seja supérfluo. No mundo atual essas pecinhas de metal misturadas a plásticos com teclado emborrachados, chips de memória e cérebros eletrônicos substituem falhas humanas, os tornando mais capazes. Como viver sem eles e não ter os defeitos de antes? Como garantir que um autor de livros que mora em Curitiba venha a conhecer um simples trabalho de um paulista, a cerca de quinhentos quilômetros de distância? Como fazer para transpor a barreira do espaço e da falta de conteúdo sem a internet? Como mudar a perspectiva de alguém fracassado na vida como eu, sem lhe dar alguma qualidade artificial, melhorada, quase pronta? Falhei em muito na minha vida e quero muito poder acertar em pelo menos alguma coisa, em tomar posse da minha capacidade intelectual e moldá-la sem a necessidade de me preocupar com os problemas que isso acarreta. Será que entende este meu ponto de vista por vezes dramático? Bem, ninguém nunca entendeu mesmo... Nem acho que ninguém nunca irá ouvir o grito daqueles que choram e pacientemente concertam o mundo para que todos que nele vivem possam enfim encontrar a felicidade, a alegria de viver. Será que é pedir demais por estabilidade e poder tomar um pouco de cappuccino com os amigos?
 
            Às vezes fico imaginado como seria a minha vida se dinheiro não fosse problema, as obras que eu ergueria no mundo se pudesse construí-las, como estariam as pessoas ao meu redor se eu pudesse ajudá-las com coisas boas. Utópico, não? O fato é que elas me ocorrem... Será que psicopatas só chegaram a matar, demonstrando previamente que não teriam facilmente tendência a matar, por que não havia ninguém lá que dissesse o que deveria ser feito? Novamente, utópico, não é? Isso me ocorre com muita frequência e minha mente só se satisfaz quando eu imagino a cena, quando eu enceno mentalmente o que eu faria. Como, por exemplo, quando fiz 18 anos e ocorreu a nova lei que permite que jovens de 18 anos possam adotar. O que dizer? Me sentiria feliz em poder dar tudo de mim a uma pessoazinha que está crescendo e precisando de alguém. A vida não me foi favorável a isso e não teria condições nem de cuidar de todas as necessidade de um animal de estimação. Não, eu seria um grande tolo se tentasse isso sem ter o devido apoio para tanto. No entanto, ainda hoje sinto essa vontade, de poder ser livre para me doar plenamente. Mais uma vez caio na utopia, num mundo idealizado e irreal que não possui sequer um alicerce para sustentá-lo. Me odeio por isso...
 
            Os dias vão passando, vou tentando entender tudo, não consigo entender nada e continuo a margem da sociedade, esperando o dia em que eu vou conseguir acertar e provar a mim mesmo que é possível conseguir. Já perdi as esperanças há muito tempo. Abro mão de muita coisa para me deixar levar desse jeito, tentando escapar da insegurança, do medo, do infortúnio. Mesmo sentindo a clara evidência de que quero amar e ser amado, me renego a solidão para não ser mal interpretado, para encontrar alguém que me ame pura e simplesmente, alguém como eu, sem grandes atrativos, sem nenhuma perspectiva. Queria encontrar alguém que gostasse assim de mim...
 
            Será que alguém um dia leu isso?
 
            O importante para as pessoas tem se tornado cada vez mais a possibilidade de alguém corresponder as suas expectativas. Não sei por que, se você não tem dinheiro pra sair, a pessoa simplesmente te desconsidera. Se você não tem cultura, você passará por ignorante, por burro, mesmo tendo interesse em ampliar seus conceitos limitados ao conteúdo comprável do mundo. As pessoas se distanciam umas das outras quando não correspondem as expectativas, expectativas disso, daquilo, de tudo. As outras pessoas querem te enquadrar e se não conseguirem, irão te ignorar. Esse tipo de pessoa pode não ser importante para uma amizade, contudo, elas são importantes para manter a renda dos assalariados no fim do mês. Se você não conquista essas expectativas, você pode lutar uma vida inteira e ninguém praticamente saberá o seu nome, seu salário não vai aumentar, seu valor como pessoa não significará nada, apenas mais um no mundo, mais um na massa, que não conseguiu satisfazer as próprias expectativas.
 
            Potencial...
 
            A palavra que eu mais odeio... Potencial. Na minha opinião, como se pode perceber nessa revolta toda em todo o texto, é que todo potencial deve em algum momento ser correspondido. Principalmente se isso garantir um salário mínimo... Me disseram coisas importantes, me prometeram coisas... Quem disse que isso se cumpriu? Parece que todo mundo que me conhece vem a ter amnésia depois de dizer essas coisas... Potencial, o maldito potencial! “Você tem potencial”, eis uma frasezinha que me irrita! Se há potencial, onde está a cinética? Nem tudo no mundo dá certo, nem toda semente encontra solo fértil pra brotar, nem todo faminto terá a fome saciada... Será que alguém entende o maldito peso da frase “você deveria escrever um livro”? Não tenho mais forças para continuar, o que torna esta viagem intragável um alívio, um alento a esta alma de sonhos quebrados.
 
            Afinal, qual o sentido da vida?
 
            Por que houve um início? Por que fui criado? Existe propósito neste sistema complicado e difuso de existência? Queria ao menos poder entender o que há de tão interessante nisso tudo, num futuro obscuro e que promete não ser como o esperado...
 
...
 
Dia 03/07/2013, cerca de 36 horas para a partida.
 
            O passar dos dias são curiosos. Esta última parte do texto foi escrita no meu notebook novo. “Como devo estar?”, penso eu, pois nem mesmo eu entendo o que está se passando. Dei adeus ao meu antigo computador, sentindo um estranho vazio, um pesar por me despedir, com quem dividi noites e mais noites escrevendo o conteúdo do blog. Estranho... Sempre usamos essa palavra para definir algo que não entendemos. Limpei os poucos megabytes que acumulei no HD, removi a imagem da estrela que também uso para identificar minha conta nele... Estranho... Vê-lo sem nada, sem nenhum ícone de arquivo do Word ou em PDF, sem nada para ler...
 
            Tantas caixas, enfiando coisas em caixas. Meus pais já fizeram um amontoado delas e eu fiz apenas uma. Velhos gostam de coisas velhas? Acho que sim, porém eu também tenho. Deixo em casa dois caixões meus livros e mangás, caixas grandes de madeira que eu mesmo fiz com portas de armários jogadas fora, um material muito bom por sinal. Eu tinha a intenção de fazer um baú, uma peça de madeira que coubesse embaixo de minha cama e pudesse ser puxada para fora. Com a reafirmação da viagem, me vi diante do meu baú, uma solução que deveria abrigar livros e dar lugar a outros, tornou-se então um local de sepultamento. Eu espero poder voltar ou mesmo mandar buscar estes caixões um dia. Haja dinheiro pra isso! Talvez eu nunca mais os veja... Ou um dia, eu os abrirei novamente, como um tesouro perdido no tempo... Não, não é assim que acontece, não comigo. O que deve acontecer? Algo que eu nunca imaginei, de certo. Quanto menos eu pensar, menos pior poderá ser... Só posso deixar escrito neles um humilde pedido: “Favor, não jogar fora. Voltarei para buscar.”
 
            Como disse anteriormente, a ficha não caiu. Definitivamente não me parece que eu não mais estarei neste lugar, nesta cidade, sentando diante da mesma mesa de madeira desmontável. Eu tenho que entender isso! Eu preciso... Senão eu vou... Possivelmente eu vou... Quem será esse que vejo nesse futuro? Será eu? Será realmente eu?

            Quem sou eu?
 Aos que ficam, se não pude dizer tudo, nem sempre temos tempo suficiente para que a dor não seja grande e prefiro evitá-la o máximo possível.
            OBRIGADO por ler. Ass.: Victório Anthony