quinta-feira, 4 de julho de 2013

Para quem quiser ler...


FRAGMENTO

 

            Eles foram dormir em suas camas aquela noite, cada um num lugar distante do outro. Adormeceram e no meio de seus sonhos eles viram uma luz muito forte com uma força que lhes puxavam para sabe se lá onde. A brisa noturna soprou gélida e insensível sobre eles, agora reunidos no mesmo lugar.
 
            — Amor... Fecha a janela, está frio... — disse o primeiro deles, um homem alto que vestia um grande casaco verde.
 
            — Ahn? Essa voz... Ei! Onde estou! — gritou o segundo deles, despertando. Ele era robusto, forte, usando uma longa manta branca com capuz.
 
            — Ué?! — disse o primeiro, já alerta. — Onde estamos?
 
            — Não façam barulho, eu quero dormir... — falou um terceiro.
 
            — O que faremos? Não estamos sozinhos...
 
            — Eu não faço a mínima ideia... — os dois que se conheciam se entreolhavam auxiliados somente pelas luzes de tochas que crepitavam ao redor deles.
 
            — Onde estou?! — o terceiro, por fim, percebia que não estava mais em sua cama. — Quem são vocês?
 
            O primeiro olhou o segundo.
 
            — Nós é que perguntamos, quem é você?! — disseram em uníssono.
 
            — Parem com o barulho, preciso acordar pra ir pra faculdade e... — o quarto se dera conta do acontecido. — Mas que merda é essa?!
 
            — Eu te conheço? — o terceiro via um jovem em idade escolar, de uniforme, cabelos negros, magro e praticamente miúdo diante dele.
 
            — Eu nunca te vi antes... — o quarto via um jovem feito, corpo trabalhado e cabelos ruivos, usando braceletes e outros adornos de metal.
 
            — Mas você é um...
 
            — Olhe. Os outros dois também estão acordando... — disse o primeiro ao segundo.
 
            O quinto era um homem de aparência bela e atraente, cabelos curtos e roupas negras como a noite. Ele bocejou e dois caninos ficaram salientes em sua boca. Seus olhos brilharam no meio do escuro ao encarar os outros quatro.
 
            — Quem são vocês?
 
            — Você... — disse o sexto. — Você é Lord Dri, não é?!
 
            O sexto usava um jaleco branco de médico, tinha uma aparência languida, um jovem adulto de aspecto debilitado como se seu psicológico tivesse sido quebrado e enlouquecido de vez.
 
            — Você me conhece?
 
            — Acho que sim, já ouvi falar muito do senhor...
 
            — Esperem! Nós precisamos de nomes! — interrompeu o terceiro.
 
            Em meio ao silêncio, o primeiro resolveu falar.
 
            — Meu nome é Gustav...
 
            — Tem certeza que é uma boa? Nós não conhecemos eles...
 
            — Vocês são Gustavo Brasman e Gustavo Norris, estou certo?
 
            O primeiro e o segundo se entreolharam novamente.
 
            — Sou eu...
 
            — É, também sou eu... E quem é você?
 
            — Se eu ainda sou eu... Me lembro que antes de ir dormir meu nome era Joe. Agora, alguma coisa aconteceu, não sou eu, estou no corpo de Valek Clancey! Um dos meus personagens!
 
            — Não acredito... — disse o quarto olhando para si mesmo. — Então eu devo ser o...
 
            — Leo Ventura!
 
            O quarto ficou estático, não sabia o que fazer diante da inexorável situação em que se encontrava.
 
            — Isso... Isso não é possível!
 
            — Vocês são escritores? — perguntou o primeiro.
 
            Todos assentiram com a cabeça.
 
            — Sou Adriano Siqueira, de São Paulo — se expôs o quinto.
 
            — Sou do sul de Góias — continuou o terceiro.
 
            — Somos de Curitiba — disse o primeiro apontando para ele e para o segundo.
 
            — Eu sou do Rio de Janeiro... — falou o quarto.
 
            — Sou cearense... — concluiu o sexto. — Se vocês também estão nos corpos de seus personagens... Quem são eles? O nome do meu é Dr. Salomon Lee, um médico insano que perdeu a mulher e a filha de forma trágica.
 
            — Somos Kullat e Thagir — disse o primeiro apontando para o amigo e depois para si.
 
            — Somos Senhores de Castelo — terminou o segundo.
 
            — Eu já ouvi esse nome... — disse o sexto para si mesmo.
 
            — Como disse antes, estou encarnado em Valek Clancey, o predestinado a unir todos os reinos do mundo.
 
            — O meu é Leo Ventura, um estudante que se depara com acontecimentos sobrenaturais no primeiro dia na nova escola.
 
            — O meu personagem é Lord Danny Ray I, Lord Dri para os íntimos. Sou um vampiro de mais de seiscentos anos que antes de ser transformado, caçava criaturas como vampiros e lobisomens, e que atualmente vive um romance com uma vampira chamada Morticia.
 
            — Então, todos nos somos brasileiros? — retomou o sexto.
 
            — Creio que sim... — concordou o primeiro. — Mas como viemos parar aqui?
 
            Eles olharam ao redor, acima deles estava um belíssimo céu estrelado e ao redor estavam portais de pedra erguidos com doze aberturas. Então, repentinamente, os portais se alteraram, mostrando, cada um, uma cena diferente. Em um, haviam paisagens quentes e explosivas de uma região cheia de vulcões e dinossauros. Ao seu lado, uma montanha altíssima alcançava e atravessava as nuvens, branco de neve no topo, rochosa ao centro e repleta de casas com seres alados na base. Outra por sua vez era cheia de cachoeiras, peixes e animais marinhos de todos os tipos convivendo em harmonia. O quarto era um lugar cheio de campos de cultivo e muralhas, com diversos tipos de animais terrestres. O quinto era uma floresta extremamente densa e verdejantes, repleta de flores e invertebrados, de rosas e lírios, à insetos, aracnídeos e outros, com uma árvore gigantesca ao centro. Seguindo a ordem, estavam o sexto e o sétimo mostrando lugares parecidos, porém diferente, locais repletos de neve e vento frio, um com uma cidade flutuante e colorida no céu e outra mais simples, com uma cidade em forma de fortaleza de gelo. A oitava cena era um lugar de nuvens escuras, como se estivessem prestes a chover. A nona era um lugar com torres elevadíssimas, como uma colméia, uma cidade área tecnológica e muito movimentada com seres brilhantes andando de um lado para o outro. A décima, também tinha a tecnologia bastante desenvolvida, mas de uma forma incomum, com fábricas soltando fumaça aos montes e seres humanos com mutações aparentes vivendo de forma muito precária. A décima primeira era um lugar com grandes desertos de areia e um ostentoso oásis que dividia espaço ao longe com pirâmides eletrônicas ligadas por uma cúpula vítrea com outra pirâmide por cima que despontava também para dentro com um prolongamento invertido. A última era um lugar mais soturno, escuro, tenebroso, despontando no céu quatro luas coloridas e mostrando criaturas sobrenaturais como fantasmas, lobisomens, vampiros e zumbis. Locais com suas peculiaridades, essencialmente diferentes e únicos.
 
            Ainda assim, a dúvida persistia, nenhum desses locais jamais foi descrito por eles em nenhum de seus escritos.
 
            — Onde nós estamos?! — gritou um deles, perdendo a paciência.
 
            — HAHAHAHAHAHAHAAHAHAHAHHAHAAH... — do nada, veio uma risada sinistra e profunda.
 
            — Mas o que é isso?!
 
            Todas as cenas escureceram, sendo engolidas por uma massa escura que começava a penetrar o local, enraizando para todos os lados como veias. Um barulho começou a soar. Não qualquer barulho, um barulho que todos conheciam.
 
            Tudum, tudum, tudum...
 
            Todos ouviam atenciosamente ao som de um coração batendo, um barulho que aumentava e tornava-se ensurdecedor, reverberando diretamente em suas mentes, hipnotizando-os. Da escuridão que invadia e os cercava, brotavam dezenas de bocas, sorrisos desvairados e frenéticos, famintos, prontos para morder e dilacerar o que tocassem com seus dentes brancos e salientes ou degustassem com suas línguas compridas e úmidas. Eles recuaram, estavam cercados por aquela massa negra que crescia e crescia.
 
            No meio do céu, uma estrela cadente irrompeu o espaço e tomou uma direção diferente. Parou sobre as doze portas e brilhou intensamente. A luz se chocou com as trevas, o tempo e o espaço se distorceram, quebrando e separando todas as portas. Elas flutuaram no vazio e se perderam no infinito. Os seis permaneceram próximos um do outro ainda um tempo e todos se separaram. Nada... Tudo acabou.
 
            O dia amanheceu e cada um acordou em sua cama. Levantaram-se como sempre fizeram, usaram o banheiro, olharam-se no espelho e, de alguma forma, um estalo os fez relembrar do estranho sonho que tiveram.
 
            O que foi aquilo?
 
            Durante o dia, eles acessaram a internet e deixaram nas redes sociais suas impressões sobre o sonho e, vendo que não foram os únicos, resolveram perguntar um ao outro se eles também tiveram o mesmo sonho. A resposta era inevitável, algo incomum aconteceu com eles e ninguém sabia o porquê de tudo isso.
 
            Quem poderia responder isso?
 
Ninguém sabe...
 

...