terça-feira, 17 de julho de 2012

Devil's Drink 20 - A Caixa


A Caixa



            Um marceneiro. Um homem de vinte e poucos anos que mal sabe manipular as grandes máquinas cortadoras, mas que aprendeu a fazer algumas coisas com a madeira encontrada na rua, que qualquer um acha melhor descartar por não ter mais utilidade e que ele simplesmente as torna útil de novo. Fazer caixas é o que ele mais faz. Não que ele goste, é o que os outros, os familiares pedem que ele faça... de graça. Ele não sabe se eles vão pagar ou não, se um dia ele poderá fazer as caixas de maneira menos tosca, o que ele sabe é que, mesmo sendo um escritor e adorar livros, literatura, fantasia, quadrinhos... Ele faz caixas. O senso de realidade se perdeu.

            Na cabeça do marceneiro, ele tinha a preocupação do que por em uma daquelas caixas que ele havia feito para outra pessoa e que ficara para ele pela caixa ter estrago no meio da confecção. A caixa possui uma tranca de cadeado, mas o que guardar tão bem lá dentro? Seus sentimentos não poderiam ser, não amava ninguém e ninguém o amava, vivia só em um mundo que ele mesmo criara. Pensamentos, então? Talvez, se ele pudesse achar que eles servissem para algum propósito ainda desconhecido por ele e que são irrelevantes agora. ‘Objetos físicos?’ pensou ele, por fim. ‘Não. Não há nada de valor nesse mundo para mim que caiba numa caixa tão pequena’, disse respondendo a si mesmo. A busca continuava...

            Foi então que ele percebeu que só restava uma última coisa a colocar naquela caixa: a esperança. A esperança de algum dia ter algo para colocar numa caixa vazia...

            Ele abriu a caixa, olhou para dentro dela, de olhar fixo no seu fundo escuro diferente do resto da caixa. Deu um último suspiro e procurou se lembrar daquilo que tinha vontade de colocar na caixa. As ideias que lhe viam eram de ter um país melhor, um país de verdade, um país em que pudesse confiar e que no meio de uma guerra, seja política ou da sobrevivência, ele pudesse lutar e se sentir merecedor do título pátrio que recebera ao nascer. Sonhava também que um dia colocasse na caixa o seu coração, preenchido por uma paixão que lhe dissesse que a vida valera à pena. Quem um houvesse de ter sentido no corpo o calor de outro corpo, uma sintonia sem igual que o fazia chorar de puro contentamento. Alguém que ele tinha certeza que nunca apareceria em sua vida. Um sonho quebrado que nunca seria concertado e que ele tinha certeza que se alguém recolhesse os cacos, seria para triturá-los de vez...

            Pensando mais um pouco, colocou lá no fundo da caixa, escondido sobre as outras esperanças, a sua inocência e bondade. Acreditar no mundo? Por mais que seu coração lhe implorasse por piedade, que eles não sabiam o que estavam fazendo, ele era fraco demais para conseguir resistir à força da sociedade que deixa de lado tudo aquilo que você fez certo na sua vida, mas que por um erro, um único erro, te massacra por ser culpado, mesmo quando errar é humano. Para fazer parte da sociedade você não pode errar, você nunca pode errar. Errar é uma facada fria nas costas que te faz subir o sangue pela boca e aos poucos destrói a sua ingenuidade que morre nos seus braços. Viver se tornar algo sério, pesado, impossível de suportar, tudo porque você errou uma única vez. Seu erro, que ele queria esconder dentro da caixa, era ter nascido...

            Colocou também dentro da caixa a sua frustração como pessoal. Ele não era a pessoas que queria ser, ele não era o filho que queria ser, ele não era o irmão que queria ser, ele não era o familiar que queria ser, ele não é o amigo que queria ser, ele não era o profissional que queria ser... Em sua mente, ele era inútil e se ele era inútil, ele era desnecessário, dinheiro que seus pais poderiam ter gasto com uma casa própria, com a faculdade dos irmãos, com a felicidade que ele nunca pode ter contribuído. Além disso, colocou por fim as suas lágrimas, o pranto que ninguém ouviu ou se importou em perceber. Ele não estava satisfeito consigo mesmo e não queria se permitir estar, só assim para se sentir justo consigo.

            Olhou para a caixa de madeira e chorou diante dela. Ele a fecharia para sempre e assim o fez. Baixou a tampa e passou o cadeado. Deixava ali uma data, até o final do ano, menos de seis meses, se algo não mudasse em sua vida ele destruiria todos os sonhos que estavam fora da caixa. Abandonaria seus textos e se entregaria à marcenaria, fazendo caixas e mais caixas. Apenas caixas.

            Com um cordão azul, ele amarrou a chave do cadeado no pescoço e decidiu que o levaria para onde fosse. A caixa estava trancada com suas esperanças dentro e ficara com a chave para se lembrar que elas estavam lá. No rosto, levaria um sorriso que não era dele; na cabeça, teria pensamentos que não eram dele e procuraria fazer coisas que ele não queria fazer. Guardou a caixa em um lugar alto e falou para si mesmo:

            – A vida é assim, um dia você cresce e não sabe porque existem sonhos...