segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Crônicas dos Senhores de Castelo: Fanzine - O Filho do Fim - Capítulo 22


Os Açougueiros

 

            Finalmente, depois do alvoroço que foi segurar o teto da vila subterrânea para que não caísse, a chuva ácida havia parado. Nerítico ouvia o som do silêncio aliviado, apesar de estar preso por mais algum tempo, para que a acidez deixada para trás diminuísse. Darla, feliz por tem encontrado o seu salvador, não continha sua animação. Alguns diriam que ela poderia estar louca, outros que ela estava simplesmente apaixonada pelo ultraquímico. Eles estavam passando todo o tempo juntos. O Senhor de Castelo tentava explicar química para a moça e ela tentava lhe explicar como entedia os elementais – que ele soube ser a forma de vida mágica mais presente no planeta:

            – Os elementais não podem ser vistos com os olhos, tem de ser vistos com o coração... – disse Darla, apertando os braços contra o corpo, sonhando com alguma lembrança perdida.

            – Você já viu algum? – o cético castelar pensava que aquilo poderia ser meramente produto de seus poderes mentais.

            – Já... Quando eu era bem pequenina. Era uma linda fada azul que dançava no ar. – a moça dançava, demonstrando os possíveis movimentos da criatura mística. – Ela tinha rosto de mulher, mas era diminuta e com asas quase transparentes. Durante algum tempo, ela vinha brincar comigo, queria me levar a algum lugar, mas sempre me traziam de volta para dentro da vila. Até que um dia, aquilo aconteceu... – Darla parou os seus movimentos alegres, baixando a cabeça de forma triste.

            – Bem, não é de todo mal. Existem maneiras de concertar os estragos que o ácido fez no seu rosto...

            – Jura moço? – Darla abraçou o ultraquímico antes que ele terminasse a frase. A grande máscara de gás que ela usava não era incomodo para nenhum dos dois. – Eu posso ter meu rosto de volta?

            – Sim... – Nerítico também a abraçou, consentindo seu carinho, lhe retribuindo a afeição.

            – Obrigada... – falou a moça quase com tom de choro. – Meus pais também podem ser curados?

            – Claro! – respondeu sorrindo. – Só precisamos sair deste planeta.

            – Droga... – Darla voltou a ficar triste. – Eles não querem sair daqui, eu já tentei tanto falar com eles. Sair do planeta? Deixar tudo pra trás? Não sei se eles são capazes de fazer isso...

            – Não se preocupe com isso. – Nerítico olhava-a diretamente nos olhos, através da viseira da máscara. – Quando eu encontrar os meus amigos, nós poderemos encontrar um meio de sair daqui e encontrar os lindos mundos coloridos que existem além das nuvens deste planeta quase morto... – seu abraço estava mais apertado.

            – Eu espero que sim... Sonhar com esse mundo novo não basta. Eu preciso mostrar aos meus pais que é possível viver ser sofrimento... Vamos mostrar pra eles a mágica que você fez com as ondinas?

            – Hahah... – Nerítico riu por se lembrar que não eram ondinas, mas somente bactérias, algo muito mais científico e comprovado. – Sim, porque não? Ainda tenho bastante comigo.

            – Obrigada moço... Nunca fui tão feliz na minha vida. – Darla se deixou sumir nos braços de Nerítico, sabia que ali estaria protegida.

...

            Infelizmente, a paz conferida pela caverna não duraria muito. Fortes pancadas foram ouvidas na escotilha, assustando a todos. O Senhor de Castelo anônimo prontamente se posicionou diante da porta de metal, esperando o que fosse. Darla não queria que ele fosse lá, que ele ficasse com ela. Mas ele não poderia, sua vida era proteger os outros e não poderia deixar que nada acontecesse com aqueles que prometera proteger. O ultraquímico preparou suas melhores granadas e esperou.

            De repente, uma voz irritante começou a rir. Eram gargalhadas esganiçadas que deixaram Nerítico arrepiado. Diante dele, atravessando o grosso metal, surgiu uma face deformada. Tinha olhos grandes, sem nariz e um sorriso de malícia na boca desfigurada e sorridente. A criatura estava sedenta, salivando copiosamente. O Senhor de Castelo jogou uma granada de gás na direção da face medonha e ela saiu da escotilha, revelando um buraco. Era de noite e não se poderia ver muito com a escassa iluminação. Nerítico ficou parado, esperando que ver se a coisa iria voltar. Ficou ali, na parte mais alta, até ouvir gritos de onde Darla e os outros estavam. Ele correu para lá.

            As luzes produzidas pela unidade de energia esférica que estava no alto da vila estavam falhando, como se algo lhe provocasse isso. “Concentre-se ultraquímico, não é hora para pensamentos ridículos!”, pensou ele, falando consigo mesmo, “aquilo é velho, pode falhar a qualquer momento”:

            – O quê?! – um braço saiu voando de dentro do grande salão. O susto foi alto e Nerítico tirou as granadas de marcação dois da cintura, as que tinham maior capacidade de deter algo sem machucar quem estiver por perto.

            Sua respiração estava difícil, sentia o cheiro do medo no ar: “É isso!”, percebeu ele, “Algo está emitindo uma substância que está me causando medo! Preciso colocar a suit de sobrevivência.” O colar com a jóia que estava em seu pescoço reagiu aos seus pensamentos e o traje especial o cobriu por inteiro, juntamente com o capacete globular, deixando de fora as granadas.

            Nerítico se aproximou rápido e cuidadosamente. A tontura ficava pior, sentia suas pernas tremerem. Havia algo de errado com ele e não havia resposta lógica para isso. Um vulto passou por ele. O Senhor de Castelo devia estar vendo coisas produzidas pela própria mente. “Será que foi algo que eu comi?”, conclui enfim, “Meu analisador verificou aquelas raízes, a composição orgânica era simples e não havia como aquilo me afetar. Hipersensibilidade talvez?”

            Por mais que ele tentasse encontrar a resposta logicamente, não conseguiria. Aquilo era algo que ele não poderia entender. O que ele viu lá dentro foi uma fumaça negra tomando forma. Não era humano, com certeza. A coisa tinha vários pares de braços negros e esguios que, apesar da altura de mais de dois metros, iam até o chão. Sua cabeça branca era desproporcional, a parte posterior estava inchada e o rosto era muito pequeno. Sua boca abria e fechava sem parar como se balbuciasse alguma coisa incompreensível. Segurado pelos braços esticados, estava Darla presa por suas mãos de dedos tão compridos quanto ele que se retorciam como cobras. O Senhor de Castelo segurou fortemente a granada e, ainda sentindo a paralisação lhe consumindo, jogou-a. A criatura foi atingida em cheio e seus braços longos tremulavam como minhocas sentindo a dor provocada pela explosão. A moça foi deixada do no chão enquanto ele desaparecia no ar.

            O Senhor de Castelo se sentiu aliviado e, misteriosamente, o formigamento também cessou, seu corpo se movimentava normalmente agora. Ele foi até Darla, seu corpo frágil estava roxo por causa da pressão daqueles longos dedos. Olhou ao redor, procurando pelos outros, não havia ninguém ali. O que tinha em um dos cantos da sala era um amontoado de vísceras semidevoradas com uma conhecida máscara de gás manchada de sangue por dentro. Karvak estava morto. O braço que havia sido jogado para fora, lembrava Nerítico, era dele. Sua mente analítica percebeu algo peculiar no amontoado vermelho, mas talvez não fosse importante. Ele estava preocupado com a moça:

            – Darla?! Responda?! – ele balançava a moça, tentando acordá-la. Ela abriu vagamente os olhos e sorriu ao ver ser herói novamente. – Darla! – alegrou-se ele.

            Nerítico removeu a suit pela jóia mágica e tirou as luvas negras e emborrachadas que sempre usa. Ele removeu a máscara da moça e apertou seu rosto contra o peito:

            – Você vai ficar bem... – Darla segurou em suas mãos agora nuas e olhou para ele. Nerítico sorriu para ela. – Minhas mãos foram marcadas por queimaduras enquanto eu aprendia a ser um ultraquímico... Eu nunca me importei com o seu rosto. Eu sei o que é ser marcado profundamente. – suas mãos eram pouco sensíveis, mas ele insistia e tocar-lhe o rosto delicadamente.

            Em um último suspiro, Darla falou algo bem baixinho:

            – Romarim... – e, cuspindo sangue, seus movimentos cessaram.

            – Não! Darla!!!

            Nerítico apertou-a em seus braços, tomado pelo desespero, aos prantos. Algo se mexeu na barriga de Darla. O castelar se assustou com aquilo que começou a rir... Era a mesma risada diabólica de antes! A barriga da moça foi tomada pelo sangue e um rosto brotava por debaixo de suas roupas. Ele hesitou. O medo lhe tomava conta de novo. Sentia seu corpo tremer descontroladamente. A roupa cobria a coisa e o castelar só teve tempo de se afastar subitamente do corpo de sua amada. Sentiu a telepatia de Darla penetrar a sua mente, dizendo:

            – Caaarneee... Freeescaaa...
 

...