quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Crônicas dos Senhores de Castelo: Fanzine - O Filho do Fim - Capítulo 25


A Queda




            “Guerra em um dia de tempestade vermelha”, não poderia ser um dia pior. “Eu tinha uma vida normal, quero dizer, para um herói eu tinha uma vida normal. Servi a Ordem dos Senhores de Castelo como fiel seguidor, nunca matei ninguém, poupando a vida de vários seres miseráveis que não mereciam sequer existir. Eu tinha a paz dentro de mim e estava feliz com todo o resto. A vida não era fácil, muitas vezes ter como arma apenas uma espada encantada me deixou em sérios apuros – eu não a uso para matar, afinal. Tudo seguia o seu curso. Havia até alguns malfeitores de meu passado que estavam levando uma vida melhor depois que eu os tirei das trevas. E então, numa fatídica tarde, eles chegaram...”
            “Nos céus noturnos de Máscar uma imensa sombra negra irrompeu o silêncio do meu pacífico planeta do primeiro quadrante atacando sem piedade. Acordei com o susto, aquela enorme nave estava justamente sobre mim na subsede da ordem, onde eu tirava um leve cochilo para depois partir para a minha casa. As missões eram estafantes, perigosas, e muito comum ganhar pouco em troca de altos sacrifícios. Meu parceiro, um alquimista, um homem muito inteligente e sério, se chamava Tálio. Agora ele deve estar morto, mas isso não é importante. Eu estava lá, dormindo e meu planeta natal estava sendo tomado de assalto. Procurei minha velha espada e uma bomba foi lançada sobre o castelo, levando tudo pelos ares. Nunca mais eu vi a minha espada...”


            “Quando acordei estava dentro dela, aquela nave colossal. Olhei por uma das janelas daquela prisão e via uma luz forte. Pensei que estivéssemos passando por uma estrela. Eu estava preso pelos pulsos logo acima de mim com algemas de drenagem. Olhei para elas e notei runas mágicas que brilhavam com várias cores. Tentei me livrar delas e sentia a fadiga aumentar, me deixando ofegante.”
            “A porta se abrira e vi pela primeira vez a face de um altariano. Não sei como descrever aquela visão, era como se a suprema beleza tivesse sido alcançada. Era uma mulher, vestida com uma armadura branca com um brilho espelhado, refletindo a luz. Pelas junções era possível ver algum tipo de couro na mesma cor, somente um pouco mais fosco. Seu sorriso era delicado, as pontas de seus dedos eram suaves e levemente rosados. Seu andar era austero e elegante. Se eu não a conhecesse agora juraria que me apaixonaria de novo. Sim, eu me apaixonei por aquela mulher e me arrependo amargamente disso. Debaixo daquela face límpida e perfeita havia um ser vil e asqueroso que faria você se contorcer de dor só de pensar nas mais terríveis possibilidades de que era capaz. Nunca ouvi o nome dela, guardo na memória somente a única frase que ela disse olhando por aquela janela enquanto eu ainda estava consciente de mim: ‘Adoro ver como os planetas explodem e se desmancham no espaço’. Eu fiquei gelado. Não devo ter dormido mais que vinte quatro horas e isso foi o suficiente para que aquele monstro espacial destruísse todas as minhas lembranças, a minha família, o lugar onde eu havia crescido. Tudo havia voltado ao pó.”
            “Aquela altariana olhou pra mim sorrindo com seus olhos prismáticos que transbordavam desejo e loucura. Ali mesmo ela me aplicou uma injeção que me deixou severamente doente. Vomitei dezenas de vezes, sofri com calafrios e com febres constantes, suando litros de suor. As convulsões repentinas me assustavam em todas as ocasiões, eu jurava que iria morrer. E pensar que aquilo não era nem o começo.”
            “Depois da longa viagem, a nave me deixou junto de outras pessoas e alguns altarianos numa grande plataforma. A centenas de metros do chão, o vento soprava em alta velocidade refrescando de alguma forma milagrosa as dores que eu sentia por todo o corpo. A nave espacial partiu e pude ver uma enorme inscrição em sua lateral que dizia ‘Quarentena’. Senti o mundo rodar e desmaiei. Só fui acordar em um laboratório, rodeado por máquinas enormes com cerca de três metros de altura e também de comprimento. Eu estava preso de novo, dentro de uma cápsula de contenção lacrada com uma porta de vidro curva. Dali eu conseguia ver outras pessoas e, infelizmente para mim, eu estava perto da mesa de cirurgias e o vidro não era aprova de som...”
            “Passei meses preso naquela cela diminuta, entubado, vendo atrocidades que tenho pavor de contar, esperando a minha vez. Eu... Eu preciso contar! Eu tenho que contar... Eu a vi, aquela monstra, decepando partes dos corpos das pessoas sem anestesia e costurando a esmo em qualquer lugar! Meus rosto, naquela época, ficava sempre úmido com as minhas lágrimas, sempre que eu me lembrava daquelas pobres crianças. Não! As crianças não! Não retalhe elas!”
            “Aquela imagem era triste demais. Eu era noivo! Eu ia me casar e ter filhos como aquelas crianças e estava preso, sem que ninguém viesse me resgatar... Foi aí que eu entendi. Percebi a mais dura de todas as verdades. Eu estava sozinho... A Ordem havia me abandonado, eu nunca seria resgatado...”
            “Chegara a minha vez. As cerras daquelas grandes máquinas se afiavam para me cortar, me abrir, me dissecar... Extirpar a minha humanidade em questão de minutos. E então fizeram, arrancaram a minha genitália, tiraram meus braços e pernas... Gritei por misericórdia até as minhas cordas vocais falharem de vez. Nada. Nenhum raio de luz me iluminou naquele instante. Permaneci naquela mesa por mais algumas horas, totalmente enfaixado, com os membros amputados e totalmente rouco. Tentava mover meu corpo, o resto do meu corpo, para que eu saísse daquela situação desesperadora e escapasse de algum forma do próximo sortilégio que aquela mulher insana pudesse ter contra mim. Me remexi para todos os lados e a única coisa que consegui foi cair no chão, machucando a cabeça. A altariana logo chegou, mandou os maquinários me recolocarem no lugar e inseriu um tubo na minha boca. O gosto era metálico. Um metal líquido e extremamente quente foi vertido pela minha garganta queimando todo o meu interior. Desmaiei mais uma vez.”
            “Quando acordei, pensei em estar finalmente no paraíso – qualquer lugar longe daquilo deve ser o paraíso. Não, não era lá. Eu estava na mesma mesa. Meus braços e pernas haviam sido substituídos por membros de outras pessoas. Olhando direito, minha vista estava embaçada, só conseguia enxergar em preto e branco. As minhas costas ardiam – algo as estava perfurando. Minha cabeça também estava doendo, latejava como nunca. Vendo que estava livre, coloquei as mãos no rosto e encontrei chifres nas têmporas. ‘Com o quê eu devia estar parecendo naquele momento’, eu pensava. Inteiramente atordoado, crendo estar vivendo um pesadelo, caminhei tentando encontrar uma saída. As luzes se apagaram e comecei a flutuar no ar. Seria bom se eu tivesse conseguido a habilidade de voar. Mas não era isso também. O laboratório onde eu estava despencava naquele exato momento, sendo descartado como algo qualquer que não havia agradado à altariana. Eu sobrevivi a queda...”
            “Caminhei por horas, com fome, com sede, sentindo meu corpo queimar sem parar. Ouvi gritos e num relapso dos meus tempos de herói, corri para ver o que era. Diante de mim estava uma criatura tão disforme quanto eu que me deu calafrios. Seu rosto era duro, estático, plastificado. Dedos compridos e languidos que seguravam uma pequena faca que estava sendo usada para abrir a barriga de um homem – estando ele ainda vivo. Peguei o primeiro pedaço de metal que encontrei e bati na coisa. Bati, bati com força, sentia o meu corpo se libertar das minhas aflições e caí em mim... Eu estava gostando!”
“Sujo de sangue, olhei para o homem com a barriga aberta e me penalizei pelo seu estado. Amparei sua cabeça com o braço e tentei demonstrar alguma piedade. Compreendendo que ele havia parado de respirar, sentia algo forte agindo dentro de mim, querendo sair. Eu relutei o quanto pude e coloquei a mão em suas vísceras caídas, levando-as a boca. Me satisfiz como nunca havia sentido antes! Deixei o lado escuro tomar conta de mim e eles apareceram, todos aqueles espinhos metálicos se projetaram através da minha carne juntamente com uma cauda comprida tão espinhosa quanto as agulhas que saíram das minhas costas. Olhei para mim, a minha roupa era preta e quatro quadrados brancos com seis pontos estavam marcados. Lambi os dedos melados de sangue e ouvi alguém gritar ao longe: ‘Açougueiro’!”
...

            – Você queria ouvir Dimios, esta é a minha história.
            – Como acha que vou confiar em você agora? – perguntou ele, com olhar sério.
            – Não confie, apenas não confie. O cheiro de sangue me deixa louco! – Monaro riu, não como homem, mas como algo que definitivamente não era mais humano.
...