segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Devil’s Drink 30 – A Cidade das Pontes


Devil’s Drink 30 – A Cidade das Pontes

 

            Um mundo urbano. Prédios e edifícios por todos os lados. Pontes, dezenas de pontes, pontes por todos os lados e nenhum rio transbordando, umedecendo ou poluindo a paisagem, apenas prédios, edifícios e pontes. Não havia praças, não havia árvores, não havia plantas. Não havia animais, não havia insetos, apenas humanos viviam ali, naquele mundo cinza, triste e tenebroso.
            Nos entremeios da Cidade das Pontes, reinava a lei de ninguém. Assassinatos cometidos com crueldade e obsessão eram frequentes e nenhuma autoridade sabia o que fazer para acabar com as mortes. Eram cinco níveis distintos, que separavam a parte baixa da mais alta e não incomum era encontrar alguns trechos em que as ligações se tornavam um verdadeiro labirinto de seis níveis ou mais. Por causa desse emaranhado confuso para os próprios habitantes, tornava-se difícil pegar o serial killer que atormentava os inúteis cidadãos. Você poderia ser morto a qualquer momento, a qualquer hora, sob qualquer ponte ou acima dela. Não havia assinatura, eram apenas mortes culminadas em hábeis destrinchamentos cirúrgicos. Eram homens, mulheres, idosos e crianças... Seu apetite era tanto que fazia cerca de três vítimas por mês, uma a cada dez dias.
            Para solucionar o terrível caso, a concretada Cidade das Pontes, capital do mundo desconhecido, recebeu da arborizada Cidade das Árvores ao norte, o seu melhor detetive, Terat, o macaco. De certo que sua feições não são tão simiescas, chegaria a ser confundido com um humano peludo, mas sua longa cauda, que utiliza para segurar sua lupa eletrônica e diversos outros objetos, deixa claro que ele é realmente um macaco.
            Um tanto intrépido, é verdade, Terat costuma deixar loucos aqueles que trabalham com ele por tem um humor sucinto, uma inteligência exacerbada na área de deduções e um eterno amor por bananas – cujas cascas são desleixadamente jogadas no chão; exceto pelas cenas de crime, Terat é sempre encontrado rodeado por cascas de bananas.
            O detetive chega à última cena do crime e observa com cuidado todos os sinais e evidência que conseguia encontrar. O local ficava no segundo nível, acima da autopista que leva à saída da cidade. O corpo se encontrava repartido, membros separados do tronco e junções devidamente limpas com os ossos expostos, não havia sangue visível no local.
Um dos encarregados chamado Dalon que deve ajudar Terat no que quer que necessite, jovem e iniciante na corporação policial, questionou:
            – O que acha senhor Terat?
            – O mais óbvio... – o homem macaco olhava minuciosamente o local sem lhe dirigir o olhar.
            – Que este local não foi a cena do crime?
            – Não... É óbvio demais...
            – E então?
            – Me dê o luminol... – o ajudante tirou de uma pasta cheia de apetrechos o frasco com o líquido transparente à luz comum.
            Terat pegou os óculos e a lanterna especial que revelaria se houve sangue na cena e borrifou o luminol. Começou em um canto e foi percorrendo um caminho até a parede. Lá terminou com o frasco inteiro.
            – Dalon?
            – Sim... – ele se aproximou.
            – Você consegue diminuir a luz deste local?
            – Só um momentinho... – Dalon tirou do bolso o celular e discou o número da central de energia. Pediu para que a energia da região abaixo da ponte do terceiro nível na seção vinte e três fosse desligada temporariamente em nome da corporação policial.
            – Ótimo... – disse Terat. – Coloque os seus óculos, você vai se surpreender com isso!
            Dalon colocou os óculos e o detetive macaco ligou novamente a lanterna. O fotógrafo forense que os acompanhava ficou atônito tanto quanto Dalon e começou a tirar fotos e mais fotos.
            – Algum motivo para isso senhor Terat?
            – Esta parede estava estranhamente úmida... Seja como for, o assassino limpou a cena do crime com muita precisão ao mesmo tempo em que destroçou a vítima em segundos... O caso é pior do que eu pensava!
            E deveria ser mesmo. Na parede, em manchas de sangue residuais, estava a imagem clara de que o assassinato ocorrera na parede e de imediato, dando pouco tempo para ele, um homem de trinta e cinco anos e com porte físico razoável, sangrar somente durante alguns segundos. Com as marcas que estavam claramente explodidas na parede e o corpo que não foi lavado com ela, se podia deduzir que os cortes instantâneos foram feitos por uma força que prendeu o corpo na parede, nela teve os membros decepados e, tendo os pedaços do corpo sendo segurados em outro local, tudo foi lavado.
            Dalon estava surpreso com as palavras de Terat:
            – Nossa! Como isso é possível? Nunca ouvi falar de algo que pudesse fazer isso e então pouco tempo!
            – Acho que sei o que pode ter feito isso...
            – E o que seria? Poderia me dizer?
            – Ainda não tenho certeza, melhor esperar até o momento certo. Tenho dúvidas que precisam ser sanadas antes de maiores conclusões... – o detetive tinha o rosto sério. Vestido num sobretudo marrom colocou as mãos peludas para dentro dos bolsos contraindo os braços contra o corpo. – Está frio aqui, não está?
            – Sim. Aqui na Cidade das Pontes sempre faz frio quando o sol se põe...
            – São apenas cinco da tarde! – disse com surpresa.
            – Os níveis mais baixos recebem menos luz diretamente do sol e acabamos dizendo que o sol está se pondo...
            – Interessante... – o detetive se virou para ir ao carromóvel e retornou ao encarregado. – Você não saberia onde posso conseguir bananas, sabe?
            – Sabia que iria pedir isso! – Dalon tirou o celular do bolso e digitou algumas palavras.
            – Ah! Mas eu nem gosto de bananas! Elas me dão azia... – a personalidade de detetive fora substituída pela de macaco.
            – Pronto, o carromóvel já está habilitado para nos levar a um lugar cheio de bananas!
            – É melhor você arranjar outro veículo para você quando sairmos de lá... Não quero constrangê-lo por causa da minha azia!
            – Heheh. Não se preocupe senhor Terat, darei um jeito nisso!
            – É sério, é melhor conseguir um veículo agora!
            – Menos, bem menos senhor Terat... Terei de me assegurar que a sua pessoa não se perca nesta cidade imensa. Sem o GPS até eu me perderia nessa ruas confusas!
            – Pelas bananas! – bufou o macaco. – Não me chame de senhor! Sou muito jovem para parecer um tiozinho...
            – Vamos?
            – Arranjou o outro veículo?
            – Não e é melhor andarmos logo antes que a Superbanana Blaster feche!
            – Mas esse lugar é lotado de gente durante a noite toda!
            – Eu já trabalhei lá e o dono é meu amigo, ele vai separar para nós um especial de banana daqueles!
            – Você é um anjo! – disse Terat com os olhos brilhando.
            – Vamos?
            – E o outro carromóvel?
            – Vamos! – Dalon não sabia se gritava, chorava ou se ria daquele palhaço.
            Eles entraram no carromóvel e a guia foi afixada no cabo de movimentação. O veículo foi carregado por ele até o local desejado, sendo guiado pelo sistema central de inteligência da cidade.

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