quarta-feira, 23 de maio de 2012

Crônicas dos Senhores de Castelo: Os Caçadores Sombrios


Exclusivo! Encontro com o Senhor de Castelo Thagir!
Informe do Multiverso



Começando transmissão...

            –Gente, vocês não vão acreditar! Lá estava eu, no meu horário de descanso, observando toda a imensidão da ilha de Ev’ve na torre da chama eterna, quando descubro que o mestre Thagir também tira um tempo pra relaxar e esticar as pernas no mesmo lugar que eu! E como ele me permitiu emitir para todas as Ordens de Senhores de Castelo do Multiverso a nossa conversa... Aqui vai!

...

            Fentáziz abre uma cartucheira, tira de dentro um cigarro e o acende com uma chama de maru laranja que faz surgir magicamente:
            –Você não deveria fumar nas dependências da ilha de Ev’ve... – Disse Thagir, subindo as escadas.
            –Ahn?! – Fentáziz procurou quem disse aquilo. – Ah, mestre Thagir! Se importa? Este é o único lugar em que eu consigo fumar sem ser interrompido pela guarda castelar.
            –Não... Mas este é um lugar sagrado, insisto que você não deveria fazer isso. – Fentáziz então dá uma grande tragada; a cena era muito melancólica, seu rosto não estava nada feliz.
            –Bem... O que o trás aqui? Há anos que sou o único que se lembra deste lugar numa hora como essa.
            –Venho aqui desde a época da Academia e as coisas não vão exatamente bem no serviço de repressão...
            –Sei. Tudo é bem feito, eles procuram sempre as melhores brechas... Afinal, sou eu quem está transmitindo tudo isso!
            –Me diga uma coisa Fentáziz, se você estivesse no meu lugar, o que você faria?
            –Depende. Todos os fatores devem ser...
            –...muito bem questionados. Aula de Estratégias e Estratagemas. Última aula daquele professor baixinho... Ele ainda dá aulas na Academia?
            –Sim e ainda continua rabugento como sempre!
            Os dois riram, pareciam dois colegas, dois aprendizes que se conheceram no primeiro dia e se tornaram amigos de infância.
            –Então, Fentáziz, muito se fala de você, mas ninguém sabe de nada... Porque isso? – Fentáziz deu outra tragada.
            –Sabe o que é ter mais de cem anos e ainda não ter sido aprovado na Academia?
            –Não brinca! Mas você parece mais jovem do que eu! – Thagir olhava incrédulo.
            –Heheh... Digamos que eu não tenha tanto orgulho de mim. Eu tive a sorte de me concederem à honra de fazer as primeiras transmissões do novo sistema de emissão específica de maru há alguns anos e tenho sustentado elas com todo o meu empenho. Sabe quantas pessoas trabalham no Informe do Multiverso?
            –Verdade... Nunca reparei nisso também. Quantas pessoas trabalham lá?
            –Duas... Eu e o cameraman. Ele também não deu muito certo na prova dos trezes dias e se juntou a mim para fazermos esse bico por aqui. O Informe do Multiverso não vai durar muito, não é? Estão desconfiados que eu ou que as transmissões estejam vazando informações importantes para os Caçadores Sombrios. Estou certo?
            –... – Thagir ficou calado por um instante, era como se Fentáziz adivinhasse que ele queria falar justamente sobre o fechamento do Informe do Multiverso.
            –Não tem problema... – Ele sorriu. – Não tem como haver mais lugar pra mim mesmo aqui.
            –Você tem certeza? Eu posso falar com os anciões...
            –Por favor, não insista. Mesmo que eu continue aqui por algum tempo, alguém por aí ainda vai encontrar um jeito de usar o Informe do Multiverso contra os Senhores de Castelo. Às vezes temos que saber a hora de desistir e encontrar algo novo para fazer... – Por algum tempo, o silêncio pairava no ar, incomodando aos dois, sendo quebrado apenas pela última e profunda tragada de Fentáziz que logo terminou de apagar a bituca e escondê-la na cartucheira.
            –E o que você pensa em fazer depois daqui? – Perguntou Thagir.
            –Bem, como eu sou um mago, vou continuar meus estudos em algum lugar, eu acho... Não tenho muita certeza do que fazer exatamente. Possibilidades demais para se fazer uma única escolha.
            –E o seu planeta natal? Você não disse de onde veio.
            –O planeta onde nasci não existe mais... Foi consumido por uma explosão solar que o desmanchou no espaço. Eu já havia sido mandado para cá alguns anos antes e por um acaso acabei sobrevivendo. Como era um planeta do primeiro quadrante que não tinha muitos recursos naturais, seu comércio com outros planetas era nulo. Apesar de haver um portal marcando a saída para os mares boreais, ninguém saía de lá. No entanto, diversos foragidos espaciais se escondiam e escravizavam a população. Foi o próprio N’quamor que liderou a derrota dos bandidos e libertou meu povo, antes de ser oficialmente eleito o próximo regente da Ordem de Nopporn. Chego a pensar que o que ele fizera fora em vão. De qualquer jeito o planeta seria expurgado do multiverso...
            –Você é o último de sua raça?
            –Acho que não preciso dizer... Bem, há algo que eu queria dizer, mas não consegui até agora.
            –Pode dizer, estou ouvindo
            –Você conhece a lenda dos planetas Curanaã e Oririn?
            –Que lenda? – Thagir tentava se lembrar, puxando pela sua boa memória, mas nunca tinha ouvido falar que o seu planeta e o planeta de Kullat tinham uma lenda em comum.
            –A lenda dos Deuses Gêmeos... Bem, a história é mais ou menos assim. Quando o multiverso ainda não existia, existiam apenas os seres de Ébano, os seres primordiais que habitavam o vazio e desenvolviam a existência a seu bel-prazer. Em seus devaneios eles brigavam constantemente uns com os outros para descobrir quem possuía a melhor ideia. Dentre essas criações surgiram os Comedores de Sonhos, seres titânicos e maldosos que consomem qualquer ideia. Para poder preservar a suas próprias ideias, a Grande Mãe deu a luz a deuses gêmeos iluminados, Brasman e Norris. Suas ideias eram novas e seu carinho pela criação era tremendo. Os Comedores de Sonhos, porém, são seres famintos e insaciáveis. Quando destroçaram seus próprios criadores, foram atrás das ideias dos jovens deuses que lutaram bravamente para preservar aquilo que a Grande Mãe e eles criaram. Foi então que nasceu a melhor ideia que eles poderiam ter: a Espada do Infinito, um instrumento divino que uniria suas forças opostas e expulsaria os comedores de sonhos de sua morada. Pelo que diz a lenda, a força emitida pela espada foi tão grande que se propaga eternamente formando os dois multiversos...
            –Como assim, dois? A teoria que emenda todos os universos no multiverso não se aplica a tudo? – Interrompeu Thagir, interessado na conversa.
            –Sim, o multiverso é um só... Só que ele é dividido em dois. Um lado positivo e outro negativo. Pelo que se entende ainda existem emissões do outro multiverso sendo propagadas, elas apenas não duram muito, se desintegram rapidamente. Digamos que desse lado, existe a maru em grande quantidade e do outro, a antimaru em grande quantidade. Se quantidades iguais dessas duas energias se juntarem, elas se desintegram. No meio de tudo isso, uma fina camada de vazio ainda continua, equilibrando os dois lados. Os Comedores de Sonhos estão presos lá e o que garante que tudo se mantenha do mesmo jeito são as Estrelas Escuras, as ideias mais bem arquitetadas para a sobrevivência das ideias da Grande Mãe.
            Thagir estava maravilhado com o achado, do lugar que menos se esperava, surgiam respostas para muitas perguntas:
            –E onde os planetas Curanaã e Oririn entram nisso?
            –Eles são os restos dos deuses Brasman e Norris... A Espada do Infinito consumiu toda a maru vital deles e se dividiu em duas, vagando pelo multiverso. Um lado gerou Curanaã e a outra Oririn quando encontraram orbitas de rochas e poeira em seus respectivos sistemas... Bem, é o que o culto a Grande Mãe prega. Ele quase não existe mais, os últimos que adoraram a Grande Mãe eram os espectros e, veja, eles quase foram extintos.
            –Como você sabe de tudo isso? Nem eu nunca ouvi falar disso e provavelmente Kullat também não.
            –Tudo está nos Códices de Oririn e Curanaã... Duas ideias que só são compreensíveis juntas. Quando se tem tempo de sobra pra ler e estudar culturas primitivas e mortas, às vezes você encontra algo quando alguém acidentalmente mistura tudo.
            –E onde estão os Códices agora?
            –Em seus respectivos planetas, guardados como relíquias nas sedes das ordens por Senhores de Castelo sob o comando direto de N’quamor e Lorde Grageon. Isso já faz mais de cinquenta anos...
            Thagir estava felicíssimo com as novidades, sabia que Fentáziz tinha seus motivos para guardar o segredo que somente ele descobriu por acaso e não teve dúvidas, apertou-lhe a mão em sinal de agradecimento:
            –Pode publicar isso, meu caro, quero que todas as sedes saibam da lenda dos Deuses Gêmeos!
            Nesse momento, Kullat, que procurava por Thagir, subia as escadas. Ele ia dizer algo, mas foi abruptamente interrompido por Thagir:
            –Velho amigo, vamos viajar!
            Os dois desceram e Thagir apenas acenou para Fentáziz, sem maiores despedidas.

...

            –Foi isso o que aconteceu... Acho que os dois vão viajar de volta para casa essa noite.