quinta-feira, 26 de julho de 2012

Crônicas dos Senhores de Castelo: Fanzine - O Filho do Fim - Capítulo 01

Página de Diário


Iniciando gravação...

            Nave de infiltração, mares boreais, cabine dos passageiros:

            “Pelos deuses! Como estou muito ansioso! Esta é a minha primeira missão como Senhor de Castelo! Parece que eu e mais outro cinco seremos mandados para um planeta novo. Mal consigo segurar o meu coração, ele está palpitando tanto que parece que vai sair pela boca!” – alguém manda o novo castelar falar mais baixo. Ele se desculpa e continua a gravação: “Desculpem-me, ainda não conheço os novos companheiros, acho que nunca os vi antes apesar de ser ávido para conhecer os mestres castelares...”
            Um dos cinco aparentando ser o mais velho se levanta e fala com o jovem:
            – Ei, garoto?! Quantos anos você tem?
            – E... Eu?! – ele engoliu a seco ao ver o homem fazê-lo ficar debaixo de sua sombra. – Eu, senhor?
            – Sim... Estou falando com você...
            – De... Dezessete, senhor!
            – Só isso? Bem, meu nome é Westem, tenho 134 anos, sou um guerreiro bárbaro do planeta Gálion. Pode deixar que eu arrebento todo mundo! – o grandão parecia ser de confiança apesar de estar pouco vestido e levar um capacete com chifres na cabeça.
            – Meu nome é Férus... – Ele finalmente conseguiu respirar aliviado. – Sou um Senhor de Castelo armeiro... De Newho...
            – Ei, pessoal, vejam só! Ele é de Newho! – o velho guerreiro chamou a atenção de todos, interrompendo o jovem castelar.
            Outros três se aproximaram para conhecer melhor o novo Senhor de Castelo que era do mesmo planeta que o grande pistoleiro Thagir:
            – É sério?! – Ferus balançou a cabeça positivamente, sem conseguir falar, sentindo-se intimidado pelos outros três veteranos. – Eu sou Pilares, assaltante natural de Teslar. Nasci no deserto e sou especializado em ataques furtivos e certeiros. Acerto qualquer coisa com as minhas facas.
            Este Senhor de Castelo tinha pele morena, cabelos claros e usava uma bandana para cobrir a cabeça.
            – Pilares!!! – irritou-se um ao seu lado. – Deixe o garoto falar! Ficar se gabando desse jeito não vai adiantar nada!
            – Poxa, Nerítico... O moleque é de Newho! Sempre quis saber se eles realmente são tão capazes quanto dizem!
            – Você não toma jeito! Sempre querendo arranjar desafios desmedidos! Fique quieto que a gente ganha mais... Hun... – Nerítico limpou a garganta se ajustando para ser cordial. – Como meu parceiro já disse, meu nome é Nerítico. Como pode perceber pelo meu jaleco branco, sou um ultraquímico, especialista em compostos químicos, além de ter inventado o soro de cura...
            – Sabia! Você também queria se mostrar! – Pilares interrompeu Nerítico bruscamente. – Depois fica falando de mim...
            – E o que você tem pra falar?! Nada! Você fica tagarelando mais do que qualquer um que eu já tenha visto no multiverso!
            – Ora, seu! – Pilares pulou no pescoço de Nerítico.
            – Me solte seu arruaceiro!
            Apesar da briga, o terceiro dos outros três, que vestia uma suit de sobrevivência preta típica de mergulhadores de grandes profundezas se aproximou. Sua pele era azul escamosa, com dois pequenos orifícios na garganta, um de cada lado, não tinha nariz; no alto da cabeça havia barbatanas que se eriçaram levemente, demonstrando deixá-lo atento as coisas ao redor. Logo ele começou a falar:
            – Perdoe nossos amigos, caro Senhor de Castelo, eles nunca sabem se comportar devidamente. Meu nome é Iksio, sou do planeta Arthúa e como pode ver pela minha aparência excêntrica, meu povo adora ficar debaixo d’água e aproveitar os quatro quintos de oceano que cobrem o planeta. Tornei-me Senhor de Castelo para viajar pelo multiverso e conhecer novas espécies de seres vivos, pois sou um multibiólogo, estudo todos os tipos de vida do multiverso.
            – Essa é boa, aparência excêntrica! Hahaha... – Westem ria da maneira muito recatada do outro Senhor de Castelo.
            – Meu caro amigo, porque toda essa excitação exagerada? Estou simplesmente relatando ao novo castelar a aparência impar que apresento.
            – Heh... Passam-se anos e você não muda nunca peixinho fora do aquário! – Iksio não aparentava se importar com o deboche.
            – Então, vocês são parceiros castelares, certo? – perguntou Ferus.
            – E como! – disse o grande bárbaro de cabelos ruivos puxando os fios da barba desgrenhada evidenciando estar orgulhoso de si. – Já desafiamos meio multiverso para ajudar planetas e reinos em perigo!
            – Meu caro Westem, mal lutamos em cem missões e você já quer que tenhamos conhecido meio multiverso?
            – O que é isso parceiro? Já passamos por noventa e nove missões bem sucedidas. A centésima está no papo!
            – Desculpe-me interromper-lhe, mas creio que o jovem castelar Ferus tem outra dúvida em mente... Pode continuar, por favor. – seu tom era bem convidativo.
            – Os outros dois que estão no chão também são parceiros, certo? – Ferus estava novamente intimidado.
            – Sim, são. – Respondeu Iksio polidamente. – Qual o interesse em saber se somos parceiros? Todos os castelares só participam de missões em duplas.
            – Heh, bem... Eu ainda não fui apresentado ao meu parceiro...
            – O quê?! – falaram os quatro ao mesmo tempo. Mesmo os dois que estavam brigando pararam para ouvir a resposta do jovem castelar.
            – Eh... Bem... – Ferus estava se sentindo envergonhado por ele parecer desleixado em não saber quem era seu parceiro.
            – Creio que você deve estar falando do guerreiro Dimios de Zínio... – Iksio apontou para o último castelar na cabine de passageiros.
            Ferus olhou para o fundo e reparou no homem que estava ali. Sua aparência era triste e vaga. Deveria ter uns vinte e cinco anos, tinha cabelos castanhos e curtos, olhava para os mares boreais pela janela sem nem ao menos perceber a confusão que se fazia ali. Ele trajava uma grande capa preta que cobria o corpo e uma das mãos, a outra estava sustentando o queixo. Dimios se acomodou um pouco para mudar de posição e a outra mão ficou descoberta, deixando Ferus afoito:
            – Isso é... Isso é.... Isso é a Garra de Sartel! – os Senhores de Castelo não reconheceram a arma  de Dimios.
            – O que é isso baixinho? – perguntou o bárbaro.
            Ferus se aproximou de Dimios com os olhos brilhando, como se tivesse encontrado uma grande maravilha do multiverso:
            – Essa é simplesmente a melhor de todas as armas já produzidas pelo grande armeiro Sartel de Armiger. Ela é feita de uma liga especial que une jóias de maru com metais de hipercondução, chamada de maru metálica pelo seu criador, e que pode gerar maru mágica, elétrica e sônica com mais facilidade que qualquer jóia de maru já produzida. É simplesmente um trabalho artesanal de uma vida! Seu misterioso segredo foi perdido quando Sartel morreu e não existe outra no multiverso! – Ferus estava completamente emocionado.
            Dimios olhou para Ferus e lançou-lhe um olhar de desprezo, escondeu a mão debaixo da capa e voltou a olhar para a janela. O jovem castelar se sentiu acuado:
            – Mas... O que deu nele?
            – Não se preocupe com ele, meu caro Senhor de Castelo. – interveio Iksio. – Dimios carrega consigo uma das mais tristes histórias de um Senhor de Castelo.
– E qual é? – perguntou inocentemente.
– Ele viu seu parceiro morrer na sua frente e ele não pode fazer nada...
            – ...! – Ferus virou-se de volta para o castelar solitário.
            A indagação era longa, Ferus não sabia se tentava se aproximar ou se deixava pra lá, até ser interrompido pelo alto-falante que anunciou a chegada dos guerreiros ao novo planeta:
            – Atenção, chegaremos a qualquer momento, posicionem-se nos seus lugares que logo estaremos saindo dos mares boreais.
            Ferus e os outros quatro voltaram aos seus lugares sem mais conversas. A dúvida permanecia na cabeça do jovem castelar: o que ele deveria fazer? Eles eram parceiros... Ou não eram?