terça-feira, 14 de agosto de 2012

Crônicas dos Senhores de Castelo: Fanzine - O Filho do Fim - Capítulo 11


A Cura



            Westem, o bárbaro de Gálion, continuava carregando o pequeno lutador que acidentalmente sentiu na pele o peso do brutamonte, quando este tentou fugir da revolta que os apostadores tiveram ao perceber que o grande lutador deles perdera para alguém tão esquelético. Aquilo também era estranho para o Senhor de Castelo, que também estava crente que quem venceria era o lutador maior.
            Algum tempo depois, quando já não eram mais perseguidos, uma vez que a vitalidade de Westem deixaria qualquer um para trás, eles pararam, Westem precisava ver se estava tudo bem com o jovem, se ele não havia quebrado algum osso. O lugar onde estavam possuía algumas construções esquecidas pela Irmandade e que já estavam bem desmanchadas pelas chuvas ácidas, mas que poderiam esconder os dois caso ainda fossem encontrados.
            O Castelar estava admirado com o corpo tão debilitado do pequeno lutador, vindo de um planeta onde os corpos esculturais, musculosos e cheios de saúde eram sempre presentes, até mesmo nos bebês, Westem realmente encarava aquilo com muita estranheza. Ele chegou até a ficar com medo de lhe ministrar a água mágica da moringa encantada que ganhara do seu parceiro quando visitaram Arthúa, o planeta natal de Iksio, com medo de que suas grandes mãos lhe fizessem algum mal, mesmo porque ela estava debaixo da suit de sobrevivência e ele sabia que passaria mal se a tirasse. Porém, não seria necessário, os olhos com olheiras profundas logo se abririam:
            – ...? ...! – o lutador estava meio tonto, mas percebeu que alguém bem grande estava ao seu lado e, assustado, jogou-o na parede com seus poderes mentais. Ele tentava fugir, rastejando do jeito que estava sem conseguir se mover muito.
            – Hahahah! – ria Westem com vontade, sem se importar por estar preso a parede. – Você é realmente forte! Agora sei por que conseguiu ganhar do outro lutador!
            – ...? – o pequeno olhou ao redor, percebeu onde estava e liberou vagarosamente o desconhecido no chão.
            Westem estava feliz, agora que sabia que o jovem estava bem e se aproximou:
            – Qual é o seu nome, baixinho? Eu me chamo Westem eu sou de... – o castelar se lembrou que não poderia falar que era um Senhor de Castelo e desconversou. – ...de onde eu sou? Heheh, eu caí do céu... E, bem, acho que me esqueci dessa parte...
            – ...? – a expressão que o menor fazia era de dúvida, não entendia o que Westem dizia.
            Então, ele tentou se levantar e sentiu uma pontada no ombro. Estava deslocado e sentia muita dor, cerrando fortemente os olhos. Westem entendeu que aquilo fora causado por ele e se aproximou, querendo se desculpar:
            – Droga! Peço mil desculpas... – o castelar tentava usar a cordialidade do parceiro Iksio, sem muito sucesso por sinal. – ...acho que eu desloquei o seu ombro. Deixe-me ajudá-lo...
            Sem muito jeito, Westem colocou os fortes dedos no ombro do pequeno lutador e, do mesmo jeito que seus irmãos faziam quando ele deslocava o ombro, simplesmente deu um tranco nos ossos, fazendo o jovem sentir muita dor:
            – ...! – apesar da expressão, não saia um único ruído da boca dele.
            – Estranho... Mesmo eu acabo falando um belo palavrão quando meus irmãos faziam isso comigo. – Westem pensou um pouco e concluiu. – Você é mudo?
            – ... – o pequeno balançou a cabeça positivamente, depois do torpor da dor passar e sentir o alívio pelo ombro estar no lugar, movimentando-o para checar.
            – E agora? Como a gente faz? Se o Iksio estivesse aqui ele poderia ler os seus pensamentos...
            O pequeno lutador pareceu estar pensando um pouco e descobriu algo. Pegou na mão de Westem e fechou os olhos. O Senhor de Castelo sentiu um formigamento e percebeu estar vendo algo em sua mente. Eram conhecimentos novos, transmitidos pelo pequeno que fluíam diretamente para os seus pensamentos:
            – Você consegue me ouvir? – disse uma voz.
            – Hoh! Consigo sim! – Westem estava mais admirado ainda com o pequeno.
            – Eu não tenho muita prática com telepatia, é difícil manter as conexões. Vou tentar ser breve e lhe explicar tudo.
            – Continue... Por favor.
            – Esta é a minha história...
            Os pensamentos de Westem mostravam-lhe o mesmo lugar que eles estavam, em algum tempo em que as construções permaneciam inteiras, com a zona de lixo ainda ao redor. As coisas não eram muito diferentes, a mesma angustia que se sentia no presente continuava no passado. A única diferença era a quantidade de pessoas, a população era muito maior, o suficiente para fazer daquele lugar um mercado de trocas – o ouro não valia nada no meio da necessidade: “Por vezes, as naves de carga que voam acima das nuvens trazem grandes quantidades de comida que iriam ser jogadas fora.” – começou. “Antes, era comida de verdade e com o tempo, os restos de comida foram se tornando cada vez mais artificiais, com porções cada vez menores. Agora, a única comida que cai do céu são pílulas, pequenas quantidades de comida em pó que conseguem manter as pessoas em pé por diversos dias, mesmo morrendo de fome. As doenças nas pessoas eram freqüentes. Pessoas que se machucavam com as ferragens inevitavelmente ficavam gangrenadas, diversas mulheres abortavam espontaneamente e as forças de qualquer um se reduziam a nada, com constantes dores por todo o corpo. Foi então que caiu do céu a caixa marcada com o símbolo da Irmandade Cósmica, a ampulheta em distorção. Que os deuses me perdoem por ter compartilhado daquela caixa...”
            – O que aconteceu? – interessou-se Westem. – Algum problema?
            As imagens que o Senhor de Castelo via ficaram escuras, como se estivesse de noite:
            – As pílulas não deixaram mais ninguém morrer... – continuou o lutador.
            – E isso não é bom?
            – Nenhuma doença foi curada... Estou vivo há tanto tempo que já devo ter passado dos duzentos anos...
            – Então, as outras pessoas? – o castelar sentia seu grande coração se apertar.
            – Estão vivas e sofrendo com as dores que começaram há séculos...
            – E eu pensando que ter cento e trinta e quatro anos era uma boa idade... Você é mais velho que eu!
            – ... – o pequeno sentiu a tristeza de sua vida voltar-lhe e desfez a ligação, virando-se para a parede, com as mãos trêmulas no rosto.
            – Me perdoe baixinho... As coisas vão melhorar, eu prometo! – disse Westem, tentando retomar o entusiasmo natural dele.
            – ... – o lutador virou-se de volta para o castelar, com o rosto triste e cabeça baixa.
            Ele voltou a tocar na mão de Westem, reatando a ligação:
            – Venha comigo... – e pôs se a andar no meio daqueles restos de esqueleto urbano.
            – Espere! Você ainda não disse seu nome! – o Senhor de Castelo quase se esqueceu desse detalhe tão importante.
            O pequeno lutador parou e foi tocar-lhe novamente na mão:
            – Meu nome é Esmal...
            – Espere!
            – ...?
            – Esse nome significa pequeno? – o bárbaro sentia que alguma lembrança do lutador havia vazado para sua mente.
            – ... – ele deu de ombros, e continuou a caminhar. Westem foi atrás dele.

...