terça-feira, 16 de outubro de 2012

Crônicas dos Senhores de Castelo: Fanzine - O Filho do Fim - Capítulo 31


A Besta – 2ª parte

 

            Pilares e Nerítico adentraram a cidade baixa correndo:
            – O que era aquela coisa? – perguntou o assaltante.
            – Um boneco, eu presumo... – respondeu o ultraquímico.
            – Sério? Nem tinha percebido...
            – Claro, sua mente inferior não consegue distinguir as coisas como a minha...
            – Estava sendo sarcástico. Mas é bom ver que você está de volta. – o teslarniano sorriu.

            Croaton, o boneco vivo, andava alegremente e saltitante.
            – O que faremos com aquela coisa? Nem consigo olhar pra ela, sinto a minha pele se rasgando! – disse Pilares.
            – Vou tentar usar uma Nº 01 nele...
            – Tome cuidado, esses prédios podem ruir com essa granada. Você sempre exagera quando faz as suas Nº 01...
            – Então lá vai... – Nerítico jogou a primeira granada, causando uma grande explosão que deixou um rombo no chão. Pilares manteve as mãos nos ouvidos para evitar o barulho da explosão.
            – Contato visual?
            – O quê?! – o ultraquímico não ouviu direito, seus ouvidos ainda zuniam.
            – Eu disse... CON-TA-TO-VI-SU-AL?
            – Espere... – ele olhou diretamente para a nuvem de poeira que se dissipava. – Não...
            – ... – Pilares ficou calado.
            – Pilares, acha que o despistamos? – Nerítico continuava com o olhar fixo no local da explosão.
            – ... – Pilares continuou calado.
            – Pilares? – o ultraquímico olhou para o parceiro. – Pilares!
            O assaltante estava tento convulsões com o olhar petrificado em uma direção. Nerítico olhou para os lado e não encontrou nada. Quando olhou para cima, a uns vinte metros de distância, viu Croaton na janela, com a mão na boca, parecendo estar rindo:
            – Desgraçado! – e jogou uma granada Nº 01 que ao explodir ruiu o prédio inteiro. – Aguente firme Pilares! – e carregou o amigo para longe dali.
            – Aiai... – o teslarniano dava sinais de que se recuperava.
            Nerítico se afastou o máximo que pode da nuvem de poeira, abriu a cartucheira com as pílulas e tomou algumas. Surtindo o efeito desejado, pode correr com maior facilidade com o parceiro nas costas. Quanto mais o tempo passava, mais eles adentravam a cidade baixa.
            O ultraquímico parou para descansar um bom tempo depois. O efeito das pílulas não durariam muito em meio à excitação constante e já dava sinais de exaustão. Eles pararam em uma esquina, próximo a um prédio arredondado. A cena urbana era comum para Nerítico, que conhecia algumas supercidades do multiverso. Porém, ali era diferente, estava tudo vazio, sombrio e medonho, além de haver um boneco sinistro capaz de enlouquecer quem lhe fixar o olhar. As coisas não iam nada bem:
            – Como você está? – perguntou Nerítico, arfando constantemente.
            – Melhor... Aquela coisa. Eu tentei ficar de olho nela para que você não a perdesse de vista. Vejo que foi um erro... – Pilares se sentia mal. – Aquilo me fez sentir a minha pele sendo rasgada e eu não podia fazer nada.
            – Aguente firme, foram apenas alucinações.
            – Não foram! Você mesmo me disse uma vez que se for real para o cérebro será real para o corpo. Aquela coisa pode matar a nossa mente só de olharmos pra ela!
            – Aguente firme, foram apenas alucinações.
            – Nerítico? Você está bem?
            – Aguente firme, foram apenas alucinações. Aguente firme, foram apenas alucinações. Aguente firme, foram apenas alucinações... – não havia dúvida, o ultraquímico tinha sido pego pelos poderes sinistros de Croaton.
            – Nerítico!!! – gritou o assaltante. – Acorda! Não olhe pra ele!
            Seus esforços foram em vão, olhou para os lados e a forte neblina havia baixado, impedindo qualquer visualização do boneco, mal conseguindo ver os grandes prédios, exceto por suas imponentes sombras.
            – Espere... De onde vem essas sombras?
            O mundo se distorceu, o senso de realidade foi perdido. Pilares se sentia flutuando no vazio. Ao lado dele, também flutuando, estava Nerítico com o olhar completamente vazio, ainda repetindo as mesmas palavras. Seu corpo começou a tremer, vibrando sem parar, com intensidade cada vez maior. Não teve tempo de gritar por socorro, a magnitude chegou a tal ponto que o corpo se desmanchou como se fosse liquido. O mesmo aconteceu com o ultraquímico...
...

            – Ai... Ai... Que dor de cabeça colossal... – reclamou Pilares acordando.
            – Vejo que está bem, afinal. – era Westem.
            – Onde você esteve? Um maldito boneco amaldiçoado nos atacou e... – ele se deu conta que Nerítico estava com ele. – Onde está Nerítico?
            – Ainda está dormindo... Você dormiu por mais de um dia!
            – Droga... É o estado B.O.B...
            – Como? – o bárbaro desconhecia o termo.
            – Nerítico me contou uma vez sobre um cara que ficou na realidade virtual sofrendo as mais terríveis dores que alguém poderia sentir. Nenhuma mente normal aguentaria sofrer danos irreversíveis e, mesmo sendo dado como morto, o tal Bob foi usado durante anos numa experiência para entender e explorar a dor...
            – E o que aconteceu com ele?
            – Ninguém sabe... Ele e o médico que o torturava sumiram... Como isso gerou uma lenda nos meios da psicologia, quando somos afetados por forças mentais chamamos isso de estado B.O.B. Bem, foi o que ele me disse...
            – E o que faremos agora?
            – Não tenho a mínima ideia... Ele nunca me disse o que pode ser feito para reverter o efeito B.O.B, ele disse que eu nunca entenderia a complexidade da mente... Heh, agora eu poderia ajudá-lo, seu tapado! – Pilares começou a chorar, tentou esconder o pesar pelo colega, mas não conseguiu. Para evitar ficar triste, tentou ficar com raiva. – E você nem me disse o que estava acontecendo com você!!! Seu idiota!!!
            A tentativa falhou, o assaltante ficou com o coração mais apertado ainda, chorando aos prantos. Westem lhe ofereceu um ombro amigo.
            – É a primeira vez que isso acontece... – disse, já conseguindo falar. – Como a Irmandade Cósmica conseguiu poderes tão horríveis?
            – Eu não sei...
            – Aliás, o que aconteceu com Croaton?
            – Quem?
            – O boneco maldito que nos deixou assim...
            – Ah, aquilo... O Iksio comeu ele...
            – Quê?!!! – Pilares ficou assustado. – Como assim ele ‘comeu’? Você já o encontrou? Onde ele está?
            De repente, um monstro mais alto que Westem surgiu das sombras. Tinha olhos de peixe, longos bigodes lisos, com uma grande barbatana no topo da cabeça. Pilares sentiu tanto medo que gritou desesperadamente:
            – AAAAAAAAAAH!
            A criatura recuou, se escondendo de novo.
            – Não grite! Vai assustar o Iksio!
            – Como?! Aquilo é o Iksio?! Aquele Senhor de Castelo todo afetado?!
            A criatura bufou, contrariada.
            – Hahah... Sim, é ele... Eu disse que o peixinho sabia se cuidar. Nessa forma ele chega a ser mais forte que eu! – o bárbaro bateu no peito, orgulhoso.
            – Cara, você precisa explicar melhor o que está dizendo... Depois o Nerítico que fica falando que eu não entendo nada...
            – Bem, como ele é multibiólogo, acabou encontrando uma criatura que o infectou e o deixou desse jeito. Todo vez que ele enfrenta o perigo e a adrenalina sobe, ele fica assim. Me lembro até de uma vez em que ele se transformou em besta no meio de um jantar em Tianrr. Você devia ver a cara da namorada dele! Ela é mais chata que um ninho de vespas!
            A fera aquática resmungou como que dissesse: “Não diga isso, por favor”. Pilares sorriu, havia entendido do que se tratava o assunto.
            – Ahn... Tem mais uma coisa que eu achei estranho. – disse Westem.
            – E o que foi?
            – Iksio disse que está assim desde que chegou aqui...
            – Você fala com ele?!
            – Eu estou acostumado, o peixinho sempre fala do mesmo jeito. Ele disse que enfrentou um fera de lixo enorme e depois ela desapareceu. Aí ele se encontrou com alguém que ficou igualzinho a ele. Ele permaneceu dentro da cidade baixa e vem enfrentando essa criaturas que mimetizam ele...
            – Mas... Eu me encontrei com ele fora daqui!
            – É o que eu estou dizendo...
            – Não vai me dizer que aquilo foi um...
            – Um dopelganger!
            – Pelas areias do deserto... Esse mundo está cada vez mais doido!
 

Continua...



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