domingo, 9 de dezembro de 2012

Crônicas dos Senhores de Castelo - O Filho do Fim - Capítulo 39


A Fábrica de Máquinas

 

            – O que você espera de mim? Sou apenas o Filho do Fim... – o ilusionista fitava as crianças tentando entender o que elas eram.
            – Croaton! Venha a mim! Eu preciso de você! – gritou o altariano.
            – Porque quer que ele venha? – perguntou Vaik, escondendo o irmão atrás dele.
            – ...! – Rubber, com seu rosto pouco semelhante ao natural, demonstrava certo desgosto pelas crianças. – Preciso dele para ficar completo...
            O ilusionista andou até um cilindro de suporte de vida com Pilares dentro. Acariciou o vidro admirando o novo e desejado corpo que teria.
            – Logo serei completo...

...

            A longa caminhada continuava, principalmente à noite, pois era mais fácil saber a direção da plataforma luminosa. Os Senhores de Castelo confiavam em Dimios, ele tem bons motivos para ser um bom líder e proteger os seus. No entanto, Westem, Nerítico e Iksio não confiavam no Caçador Sombrio e muito menos na garotinha de vestido vermelho que tentara matá-los há poucas horas. Andar com eles muito próximos era uma contradição, um sentimento que calou os castelares de suas conversas amistosas e cheias de alegria. O ziniano andava decidido, passos firmes, seguia sem medo pelas ruas mortas da Cidade Baixa, já não temia os perigos que poderiam surgir.

            Iksio se lembrara de algo e passou a frente dos outros para falar com o guerreiro da garra:
            – Dimios... Mais a frente, pelo que me lembro quando vim aqui, há uma longa esteira que leva materiais do lixo para o centro da cidade. Pelos barulhos repetitivos concluo com total certeza que deve haver uma fábrica da legião parafuso por perto.
            Ele olhou para o arthuano sem dizer nada e fez um sinal com a cabeça de que havia entendido. Na verdade, ele já pensava que naquele lugar cheio de maquinários pesados deveria haver algo que produzisse mais máquinas, um molde que fabricaria cópias da legião. Os sons do trabalho mecânico logo foram ouvidos.
            – Iksio, você se lembra de mais alguma coisa?
            – Creio que não, caro Senhor de Castelo. Vim até aqui para pegar o contêiner e saí daqui sem demora.
            Uma máquina apareceu no caminho apitando bem alto. Seu leitor indicava: “Intrusos”, no qual substituída com eficiência pela palavra “Destruir”. Dimios não tardou em atirar uma esfera de energia elétrica que deu um grande curto no maquinário que, por fim, explodiu. Isso chamou a atenção de mais duas máquinas que vieram para cima dos Senhores de Castelo e seus aliados com tiros de pregos metralhados. Desta vez foi Nina que interveio e, com seus poderes sombrios, rasgou uma fenda da zona das sombras na frente do grupo que engoliu com eficácia os projéteis pontiagudos. Westem por sua vez lançou a sua corda mágica em um dos maquinários e o jogou com força atrás de todos, despedaçando suas peças. Nerítico deu cabo da última máquina com uma de suas granadas de rótulo Nº03, que incendiou o maquinário e o fez explodir. O arthuano, pensativo, escreveu no ar com a escrita mágica a palavra “Rastrear”, aumentando sua percepção para localizar todos os inimigos.
            – Dimios... Se continuar assim logo chamaremos a atenção da fábrica... – a crista do multibiólogo abaixou, ele tremia ao constatar o que via.
            – Quantos são? – perguntou de volta.
            – Mais de um milhão de máquinas...
            – O quê?!
            – Tenho certeza... Todos os prédios abaixo daquela plataforma estão cheios dos robôs da legião parafuso...
            – E essa agora... Esperava ter bem menos... – o guerreiro olhou para o Caçador Sombrio.
            – Não olhe para mim lixo desprezível do multiverso. Nunca ajudarei um Senhor de Castelo, nunca! – Rigaht estava decidido.
            – Na verdade, iria lhe pedir um conselho... Mas acho que já sei o que posso fazer. Nerítico, quantas granadas você ainda tem?
            – Não muitas... – o ultraquímico abriu o jaleco branco repleto de frascos, granadas e outros elementos químicos. – Sem contar os tipos, posso fazer ainda umas cento e cinquenta...
            – Ótimo. Poderei botar o meu plano em prática...

...

            – Todos prontos? – perguntou Dimios ao grupo depois de cerca de três ou quatro horas.
            – Sim, tudo pronto no lado leste. – respondeu Nerítico.
            – Consegui fazer tudo o que me pediu Dimios, o lado sul está pronto. – falou Iksio.
            – Tudo nos conformes! – disse Westem. – Lado oeste pronto!
            – Vocês são loucos! – exclamou Rigaht vendo o tamanho das proporções que aquele plano levava.
            – O lado norte também está pronto e vocês, caçador e Nina, escondam-se...
            – Meu querido Thagir vermelho, vamos leve-me! – ordenou a menina, sentindo prazer por brincar daquela forma.
            – Como vou encontrar vocês no meio disso tudo? – questionou o Caçador Sombrio.
            – Você saberá... – respondeu Dimios decidido. – Senhores de Castelo, Iqueróm wa puma!
            – WA PUMA! – gritaram os quatro em uníssono erguendo as mãos para o céu e se separando em direções distintas.
            Cada um dos castelares enfrentaria sozinho uma centúria dos maquinários pesados da legião parafuso. Não hesitaram em seguir as ordens de Dimios, confiaram nele a única forma de derrotar um número tão grande de robôs assassinos.
            Algum tempo depois, Nerítico foi o primeiro, desarmado e com apenas algumas pílulas fortalecedoras na mão, engoliu uma boa quantidade delas e jogou uma grande pedra num grupo de máquinas que patrulhavam. Localizando o intruso, perseguiram-no aos montes imediatamente, atirando diversas vezes. O ultraquímico correu o máximo que pode, atravessando diversas ruas e chegando a um ponto específico, completamente encurralado.
            O arthuano foi o próximo, confiava em seus instintos de Senhor de Castelo que nunca o enganaram quando estava sob ordens, cumprindo-as com perfeição. Em todos os anos em que trabalhava com missões, seu grande prazer era fazer a coisa certa. Ser um herói era seu verdadeiro tesouro. Atravessou algumas pontes, correu durante um bom tempo e reencontrou as máquinas. Concentrou-se ao máximo, precisava de calma para fazer aquilo e escreveu magicamente a palavra “Dizimar”. Dez máquinas foram pelos ares, alertando mais de cem delas. O multibiólogo virou-se de costa, ajoelhou-se e escreveu nas pernas “Correr”. Saindo em disparada, fazendo o mesmo mais algumas vezes. O lado sul ficou repleto de máquinas.
            Westem não correu, saltava vigorosamente de prédio em prédio, chegando ao lado oeste, o mais distante de todos, mais rápido que os outros aos seus postos. No alto do edifício, arrancou com as próprias mãos parte do concreto e o atirou ao longe na direção de um grande grupo de maquinários. Com vários avariados, um robô sentinela com scanner verde apareceu, varrendo completamente a área. Conseguiu detectar o bárbaro com poucos segundos de verificação. O galiano parou de jogar pedras, amarrou a corda mágica onde pode e saltou de bang jump em cima da sentinela. Daquela altura, seu corpo grande e pesado se tornou uma bala de canhão que destruiu completamente a máquina. Dezenas de outros se aproximaram, atacavam sem piedade. Westem puxou a sua corda mágica que encurtou rapidamente, levando-o de volta ao topo do prédio, deixando aquele robô pisoteado explodir. A legião parafuso analisou os últimos dados e começaram a demolir o prédio de baixo para cima. O Senhor de Castelo mudou de prédio e repetiu os ataques, destruindo qualquer sentinela que aparecesse.
            Por último foi Dimios que usou um encantamento do vento para aumentar sua velocidade. Ele, que já era rápido e habilidoso, rasgava o ar com eletricidade estática, carregando negativamente a região. Ao encontrar os maquinários, começou a investir com vários ataques diferentes. Sônicos, elétricos, mágicos... A Garra de Sartel estava sendo usada ao máximo, o que atraiu não centenas, mas milhares de máquinas da legião. Seu escudo de força precisou ser usado, evitando que fosse atingido pelos numerosos projéteis. Duas máquinas maiores surgiram no meio do exército de robôs com maças de demolição acopladas as suas ferramentas. O ziniano conseguiu se desviar da primeira que lhe foi atirada e rapidamente recolhida por uma poderosa corrente. No entanto a segunda acertou-lhe em cheio, espremendo-o contra a parede. O escudo de força poupo-lhe a vida, mas o choque quase lhe ruiu as forças. Caído no chão, a legião se aproximava, só precisando acertar a mira para esmagá-lo como um verme. Ele gerou uma esfera de força com a garra, pronunciou um pequeno encantamento e lançou-a para o céu. O plano de Dimios teve início.
            Com o sinal dado e recebido pelos Senhores de Castelo, eles acionaram todas as granadas ao mesmo tempo, gerando explosões por toda a Cidade Baixa. Elas não atingiram as máquinas, pelo contrário, seu alvo eram as frágeis estruturas das centenas de prédios construídos tão próximos uns dos outros. Como numa sinfonia perfeita, eles ruíram, devastando milhares de máquinas da legião parafuso que não tinham como se defender daquela colossal quantidade de toneladas sobre eles. Estava acabado, num golpe perfeitamente sincronizado, os Senhores de Castelo destruíram boa parte dos prédios.
            – Eu disse que eles eram loucos! – disse Rigaht, impressionado.

...