sábado, 12 de maio de 2012

Desvil's Drink 15# - Sangue

            Era um dia muito chuvoso naquela pequena vila. En’hain, Gurei e Akai tiveram que sair para ver como estava Lady Neko que estava passando alguns dias no templo completamente gripada. Eles não demoraram muito, aquela chuva era uma invocação das ondinas que iniciavam uma evolução para se tornarem provedoras da chuva. O que aconteceu a seguir, diz respeito ao pequeno Akai, pois ele não é apenas um pequeno Neko, ele é marcado pelo vermelho do sangue...
            – Vamos correr! – gritou Gurei tentando não molhar o pelo.
            – Demorou! – retrucou En’hain carregando o pequeno Akai nas costas se esforçando para correr debaixo de tanta água.
            Quando chegaram, En’hain e Akai entraram, a porta se fechou e Gurei ficou do lado de fora:
            – Ei, o que está acontecendo? Abram a porta!
            – Mas, o quê? – En’hain olhou para trás e viu que Akai trancara a porta e passara a chave, impedindo que Gurei entrasse. – Akai, abra a porta.
            – Não! – Akai estava sério, sentia algo de estranho no ar, estava ouriçado.
            – Está tudo bem Akai?
            – Meu nome não é Akai! – disse ele num grito forte e determinado.
            – ...! – En’hain deu um passo para trás, nunca tinha visto seu pequeno amigo daquele jeito. – Akai, você está me assustando...
            – Gente! O que está acontecendo aí dentro? Abram logo a porta, não estou gostando dessa brincadeira. – dizia Gurei do lado de fora que não parava de puxar insistentemente a maçaneta. – Vocês sabiam que está chovendo aqui fora?!
            – Meu nome não é Akai, meu nome não é Akai, meu nome não é Akai...
            – Está bem, vou tentar entender... – En’hain estava com as mãos abertas e espalmadas. – Akai foi o nome que você recebeu aqui, um apelido, se preferir... Qual é o seu verdadeiro nome?
            – Meu nome é Santiago. – respondeu rispidamente.
            – Está bem... Santiago? O que você quer? Não precisava trancar o Gurei lá fora...
            – Não queria interrupções... Eu quero o seu sangue!
            – ...! – En’hain se lembrou das duras palavras que Gurei lhe dissera no dia em que se conheceram: se um neko beber o seu sangue, ele nunca mais irá querer tiver e estará livre para ir embora. – Por quê? Você não é feliz aqui?
            – Já me cansei de você! Eu odeio que fiquem mandando em mim... Me dê o seu sangue!
            En’hain puxou uma cadeira e se sentou, tentou dizer algumas palavras, mas elas entalaram na garganta. Por fim, começou a chorar normalmente. Não com dragão, como humano:
            – Eu sabia... Um dia isso iria acontecer, não é? Você iria embora e eu voltaria a ficar sozinho...
            – ... – o neko encarava-o silenciosamente.
            – Eu não queria acreditar que o que eu estava fazendo era errado, tentei dar o melhor de mim para que você não ficasse triste. Juro que todas aquelas vezes que eu mandei você fazer algo, era pensando no seu bem-estar, num jeito de você também participar de alguma coisa... Me desculpe...
            Akai não deveria estar escutando, colocou as garras de fora e partiu para cima de En’hain, no pulo de um gato. En’hain era mais forte e ágil, conseguindo se desvencilhar segurando as duas mãos de Akai. Pela primeira vez o draconiano se sentiu feliz por ter se tornado tão diferente:
            – Eu queria... Queria que você fosse livre. Mas também queria que você ficasse aqui comigo. Quem está preso a essa maldição sou eu, Santiago!
            – Me dê a droga do seu sangue! – En’hain passou por debaixo dos braços do neko e o abraçou.
            – Me arranha, estripa a minha carne, libera toda a sua raiva e derrame quanto sangue quiser. Eu já não pertenço mais a mim, sou completamente seu...
            Akai começou a arranhar profundamente as costas de En’hain, deixando suas garras completamente vermelhas, banhadas em seu sangue. En’hain chorava de dor, não da que sentia com seus machucados, mas da dor que sentia em perder aquilo que lhe era mais precioso:
            – Lembra-se daquela história que vários clientes do bar contam, a história de La Estrega, a bruxa? Eu também me esqueci de dizer... Eu te amo. – Akai parou, seus olhos permaneciam cheios de ódio. – Pode arrancar... arranque meu coração...
            – ...? – Santiago estava confuso.
            – Não aguentaria pensar em você sofrendo e não poder estar lá para te proteger...
– O que você quer? Se eu arrancar seu coração humano você vai...
– Ficar mais feliz do que viver uma eternidade sem você...
– Se eu ficar... Vou te odiar... Como odeio meu último mestre... Odeio que mandem em mim!
– Então como você não me obedeceu agora a pouco?
– Hoje é o dia da liberdade, hoje o selo não tem efeito... O mesmo dia em que matei meu último mestre...
– Você queria tanto assim ser livre?
– Eu não suporto ser forçado a fazer qualquer coisa e é inevitável que um neko obedeça a seu mestre...
– Não me obedeça...
– ...?! – o neko não entendia aquelas palavras.
– Faça o que quiser... Eu já não pertenço mais a mim... – En’hain largou Akai e caiu no chão, já havia perdido muito sangue. – Amanhã é o aniversário de um ano que você saiu da caixa... Feliz aniversário... – e desmaiou.
Akai se levantou, abriu a porta e encontrou Gurei que estava totalmente ensopado:
– Miau! Finalmente! Pensei que iam me deixar mesmo lá fora a noite toda e...
– Ajude o En’hain... – Santiago estava de cabeça baixa.
– O que aconteceu aqui?! – Gurei olhou para as mãos de Akai e viu que elas estavam vermelhas, olhou para trás dele em seguida e viu En’hain naquele estado. – Santiago, o que você fez?!
– Ajuda ele... Nyaaa... – Akai escorregou escorado pela porta até se ajoelhar, sentia grande tristeza que transbordou em pranto.
...

            En’hain passou aquela noite dormindo depois de ser tratado pelos poderes de cura de Gurei e já não corria risco de sua parte humana, que veio completamente a tona por causa de toda aquela emoção, corromper seu corpo etéreo de metal. Aquilo era um risco que poderia comprometer toda a sua evolução para se tornar um draconiano de verdade. A única forma de matar um dragão é abusando de seus sentimentos e arrancando seu coração.
            Akai permaneceu o tempo todo com En’hain até ele acordar:
            – Santiago... – disse o barman ao perceber a presença do neko ainda do seu lado.
            – Pode me chamar de Akai, se quiser... – o neko estava sentando numa cadeira abraçando os joelhos, sem olhar diretamente para En’hain.
            – Venha cá... por favor. – e estendeu a mão depois de se acomodar melhor na cama.
            – Não quero... Eu machuquei você...
            – Eu não ligo! – gritou em tom meio choroso. – Estou feliz por você ainda estar aqui, então chega disso e venha logo aqui... por favor...
            Akai se sentou na cama como En’hain havia pedido, ainda sem lhe dirigir o olhar. En’hain o abraçou sem pedir permissão:
            – Feliz aniversário, amigo. – Akai olhou para En’hain e deixou sua cabeça pousar em seu ombro.
            – Nyaaa... Obrigado.

            Sorrindo, En'hain completou:

            – Como você cresceu!
 
            Foi isso...