sexta-feira, 11 de maio de 2012

Devil's Drink 14# - O porão


            –Como é que é?! –Indagou En’hain.
            –Vamos ao porão... – Disse Gunshin procurando por algo no meio do chão atrás do balcão.
            –Que porão?! Essa casa, esse bar... tem um porão?!
            –Sim... Achei! – Não dava para ver o que o dono do bar fazia, mas deu para ouvir o barulho de uma chave virando.
            En’hain estava estranhando tudo aquilo e foi para trás do balcão lentamente:
            –Que merda é essa?! – En’hain se deparou com um buraco no chão, não havia porta nenhuma, nem fechadura e muito menos um dispositivo que pudesse esconder uma parede falsa.
            –É uma escada, por quê?
            –...! – Tinha fumaça saindo da cabeça de En’hain que estava com a cara fechada. – Nada não... Você sempre me escondendo alguma coisa. Vai me dizer que aqui também tem um sótão, não é?
            –Não, não tem... Você queria um?
            –Deixa pra lá... O que a gente vai fazer lá embaixo mesmo? – Gunshin pulou dentro do buraco que possuía um desnível e continuo descendo pela escada. – Ei, me espere!
            O porão do bar, se é que se podia dizer isso, era um lugar amplo, cheio de prateleiras com garrafas velhas e esquecidas, provavelmente uma adega. No entanto, haviam mais coisas, haviam caixas, baús, entulho jogado em cima de entulho, “Um verdadeiro ferro velho”, pensou En’hain.
            –En’hain! – Chamou Gunshin. – Venha aqui, tem algumas caixas para você levar lá para cima!
            –Sim! Onde você está? Não estou te vendo! – De repente, um estalo de dedos e algumas lamparinas espalhadas pelas colunas de sustentação acenderam, iluminando aquele vasto local que parecia não ter fim, talvez por nem todas terem acendido. En’hain pegou uma delas e se pôs a andar na direção da voz de Gunshin.
            –Vamos logo! – Gritou Gunshin. – Eu já vou levar metade lá pra cima.
–Dá um tempo, caramba! Não dá pra ver nada direito aqui.
–Pare de ficar com medo! E venha logo pegar essas garrafas de Devil’s Drink! – A voz estava distante e a cabeça de En’hain soltava fumaça...
–Velho desgraçado, nunca me diz o que está realmente fazendo... – Resmungava En’hain baixinho, tentando não ser ouvido pelo dono do bar.
–Pegue as caixas de Devil’s Drink! – Falou alto mais uma vez.
–Que caixas?! – En’hain bateu o pé em alguma coisa. – Ai! Cacete! Ahn... Heheh, achei!
En’hain havia batido justamente nas caixas de garrafas que Gunshin havia mandado procurar. Notou que ao lado estavam marcas de algo que foi movido recentemente:
–Filho da mãe! Que raiva! Já me deixou largado aqui! – En’hain ficou vermelho. – Bom, é o jeito.
Pegou as duas caixas que haviam ali com uma das mãos e com a outro foi apoiando, enquanto segurava a lamparina para não se perder, e foi votando em direção a escada... “Que escada?”, se perguntou, pois não conseguia saber onde aquela escada estava no meio daquela imensidão.
–Fudeu! – Disse preocupado. – Gunshin, onde está você?!
–... – Ninguém respondeu.
–Só me faltava essa! – E continuou andando. – Como é que eu vou fazer pra sair dessa imensidão? Opa! O que é aquilo ali?
En’hain se distraiu com algo grande com um lençol branco por cima, deixou as caixas de lado e foi olhar. Puxou o pano e descobriu um espelho, um pouco maior que ele na qual começou a se ver. Ele se sentiu estranho, num primeiro momento sabia que era ele, mas não se reconhecia. O que ele via era alguém de cabelo prateado, olhos de pupila rasgada verticalmente com fundo vermelho. Os dentes eram apenas caninos, muito salientes, como um tubarão, só que metálicos. Suas unhas, também metálicas, mais pareciam como as garras dos nekos.
–Que porra é essa...
–Nossa que demais! – Disse Gurei admirando o espelho.
–CACETE! Que susto você me deu agora!
–Do que você está falando? Eu acenei pra você pelo espelho.
–Espere aí... – En’hain se virou de volta para o espelho e tomou outro susto. – Eu só consigo me ver!
–Verdade... Eu também só consigo me ver. Nossa! Como eu estou bonito! Caramba! Posso ver meu outro olho! – Gurei admirava uma imagem diferente dele, alguém muito parecido e que não usava tapa-olho.
–Para tudo! – Disse Lady Neko que apareceu do nada. – Gente! Como eu estou magra, linda, maravilhosa e magra, miau!
–Lady Neko, você também?! – Indagou En’hain. – Você disse magra duas vezes? Vê se te enxerga mulher!
En’hain disse aquilo e outras coisas, mas nenhum dos dois ligou para ele. Mas o que mais o preocupava era sua própria imagem: “Porque eles estão gostando do que estão vendo e eu nem consigo me reconhecer?”, pensava ele.
Do lado de fora, Gunshin esperava pacientemente que En’hain e os outros saíssem:
–Ele está demorando demais...
–Nyaaa! – Fez Akai se debruçando por cima do balcão para ver o buraco.
–Vá lá ver o que eles estão fazendo. – Mandou, sem mais nem menos.
–Nyaaa?! – Akai desceu do balcão e se escondeu.
–Quer me perguntar alguma coisa, Akai? – O pequeno voltou a parecer pela frente do balcão, tentando evitar o olhar de Gunshin.
–O Espelho de Narciso está lá embaixo, não é? – Perguntou Akai sem problemas.
–Você já conheceu esse espelho, pequeno? – “Akai parece saber mais do que demonstra”, pensou Gunshin.
–Esse espelho maldito já trouxe muitos problemas à Vila dos Gatos. Por que ele ainda está aqui?
–Você verá... – Disse sorrindo.
–AAAAAAAAAAH! – Alguém gritou lá embaixo.
Akai ficou muito assustado, indo para frente do balcão de novo, Gunshin nem ligou:
–Está feito! – O dono do bar se alegrou.
Lá embaixo, o espelho estava quebrado e En’hain estava agachado em posição fetal, se lamuriando:
–Porque comigo? Porque comigo? – Ele escondia a cabeça atrás dos joelhos enquanto se balançava pra frente e pra trás.
Os dois nekos pareciam estar acordando do transe e perceberem que En’hain havia gritado. Gurei levantou a lamparina para iluminar En’hain melhor e deparou se com aquela cena inusitada:
–Mas o quê? En’hain, você está bem?
–Amore, tudo bem? – Perguntou Lady Neko.
–Minha vida terminou... – Disse En’hain, ainda escondendo o rosto.
–O que aconteceu com o seu cabelo? – Continuou Gurei. – Vamos, levante o rosto para que eu possa ouvir melhor...
En’hain levantou, ainda com muito medo, para que os outros pudessem vê-lo, temendo o que pudessem dizer. Gurei viu e não conseguiu segurar:
–Hahaha... – Gurei dava risadas altas.
–En’hain... Você está tão... diferente!
–Acho que foi aquele maldito espelho...
–Vocês três, venham logo! – Disse Gunshin.
–Sim... – “Velho maldito desgraçado que só me mete em mais encrenca...”, pensava En’hain emburrado.
Os três se dirigiram para fora do porão logo que viram a escada, que aparentemente apareceu assim que Gunshin os chamou. Gurei saiu primeiro, depois Lady Neko e por fim En’hain, que não queria sair de trás do balcão:
–O que você ainda está fazendo aí? – Perguntou Gunshin.
–Eu não vou sair daqui...
–Saia logo, eles precisam ver como você está... – Insistiu Gunshin.
En’hain estava envergonhado e não conseguia tirar as mãos das costas. Gunshin o puxou pelo braço e finalmente todos firam o que estava atormentando En’hain. Conforme ele vira no espelho, ele estava daquele jeito, cabelos prateados, olhos de pupila rasgada com fundo vermelho, seus dentes e garras estavam afiados e eram feitas de metal. Só havia um detalhe que faltava:
–Hahaha... Uma calda?! – Gurei ria muito alto.
–Para de rir seu palhaço!
–Ui! Cuidada com essa boca... tubarão!
–Ninguém merece... – Saia muita fumaça da cabeça de En’hain, uma veia na sua testa estava saltada e mostrava um sorriso forçado com seus novos dentes afiados. – Gunshin, por favor, tem como reverter isso?
–Na verdade... Não. Não foi o espelho que fez isso com você...
–Mas, então... O que significa isso?
–É a sua transformação que continuou. Acho que já deve estar estável agora.
–Fudeu... – Lágrimas metálicas despontavam no canto do olho dele.
Akai ouviu a conversa e finalmente saiu de onde estava escondido, indo subir nas costas de En’hain:
–Nyaaa! – Fez ele feliz, usando a nova cauda de En’hain para subir.
–Ai, cacete! – O draconiano gemeu de dor. – Akai, é você, é?
–Nyaaa! – O pequeno neko estava muito feliz com En’hain, não demonstrando estranhar as novas condições de seu mestre, já que havia ficado muito mais fácil subir em cima dele. O dono do bar ficou olhando para Akai enquanto ele brincava na cabeça de seu barman: “Esse neko”, pensou Gunshin, “é bom que eu tome cuidado com ele”...
–En’hain? – Lembrou Gunshin. – Onde estão as caixas?
–Putz... Sabia que tinha esquecido alguma coisa...
–Hahaha... – Gurei continuo a rir de En’hain, que apontou sua nova cauda pra ele e que abriu em vários espinhos de metal, enquanto olhava para Gurei com olhar assassino. – Vixi!
E todo mundo riu daquela situação...