quarta-feira, 20 de junho de 2012

Crônicas dos Senhores de Castelo: Fanzine - Os Caçadores Sombrios


Sonho e Realidade
Informe do Multiverso



Começando transmissão...

            “Rhu’ia! Saudações, Senhores de Castelo! Agora que tudo está nos conformes, podemos voltar a transmitir a nossa programação do Informe do Multiverso normalmente! Hoje venho lhes contar sobre o estado da nossa querida Senhora de Castelo, Laryssa de Agabier, que permaneceu desacordada por mais de uma semana! Ela já acordou e passa bem, está extremamente feliz e nos contou com exclusividade o sonho que teve durante o seu período de coma. Confira! Aqui é Fentáziz, do seu Informe do Multiverso.”

...
            “No sonho tudo era bom, eu estava em Agabier, andando a cavalo por uma manhã meio nublada com meu pai, Larys, rei Agas’B. Os animais estavam recolhidos por ainda ser meio cedo e a natureza estava contente por reunir os elementais do ar, da água e da terra na dança da chuva do dia anterior. O cheiro da umidade estava melhor do que nunca, a vida estava transbordando naquele momento. Eu olhava para o meu pai e ele olhava para mim, sorriamos um para o outro. Eu nem me lembrava do que estava acontecendo, simplesmente eu o seguia lado a lado, sentindo a leve brisa de Agas’B no meu rosto, não haveria momento melhor que aquele.”
            “Ao chegarmos próximo ao castelo, avistei alguém que acenava para mim, eu não conseguia ver seu rosto, então perguntei para meu pai quem era aquele. Ele virou se para mim e disse: ‘Ainda está com sono minha filha? Não consegue ver direito? Aquele é o seu noivo!’ Eu me assustei muito, eu nunca fui prometida em casamento a ninguém. Meus pensamentos me diziam que meu pai havia aprontado alguma e que eu acabaria me casando com alguém que nunca amei. Olhando de perto, percebi que era um homem alto, forte... que realmente não tinha rosto! Percebi que deveria estar num pesadelo, desci do cavalo e sai correndo para dentro do castelo, estava apavorada, pensando: ‘Por que meu pai não afasta aquela assombração para longe de mim? Por que os soldados e guardas do castelo não fazem nada?’ Eu tremia atrás da porta do meu quarto, pensando no pior.”
            “Foi então que alguém bateu suavemente na porta: ‘Mestra Laryssa? Por favor, abra a porta, sou eu, seu amigo Azio.’ Me alegrei em ouvir aquela voz que mais ninguém apresentava, tinha certeza que era meu amigo autômato que sempre me acompanhou desde que eu era pequena. Decidi abrir a porta o suficiente para checar se o monstro estava lá e não deixá-lo entrar. Vi Azio e me acalmei um pouco, deixando o entrar:
            –Mestra Laryssa está bem? Meus sensores indicam que seu coração está batendo muito forte... É por causa do casamento?
            –Azio... – Eu queria chorar. – Quem era aquele?! Eu nunca fui prometida em casamento!
            “O meu amigo de lata virou-se e tentou abrir a porta. Quando vi novamente aquele rosto sem feições que me assustava tanto ‘olhar’ pela fresta, subitamente fechei a porta em sua cara. Ouvi algum gemido de dor, me preocupei um pouco com o sujeito, mas meu coração disparado me impedia de abrir aquela porta e olhar.”
            “Azio olhava para mim, piscando os olhos eletrônicos de preocupação. Ele pôs a mão metálica no meu ombro, me fazendo sentir a temperatura natural de seu corpo, e tentou me dizer algumas palavras: ‘Mestra Laryssa, estou muito preocupado, desde que voltamos da grande batalha contra os Caçadores Sombrios, você tem agido muito estranhamente. Você ama o seu noivo, não ama?’ Aquilo me caiu como uma pedra. Como eu poderia ter concordado com aquilo?! Eu só me lembrava de Kullat, meu amado Kullat... Comecei a chorar, molhando meu rosto por inteiro, no meu coração eu sabia, Kullat estava morto e não voltaria mais!”
            –Eu... Só amei o Kullat... Agora vejo meu amigo, não conseguiria me casar com mais ninguém. – Eu tentava fazer Azio entender o que se passava comigo.
            –Laryssa, meu amor, abra a porta! – O sujeito que me prometeram em casamento tinha perdido a paciência.
            –Eu não sei quem é você! Vá embora! Eu não quero me casar!
            –Laryssa! Não faça isso comigo, abra a porta, vamos conversar direito! – Ele insistia em mexer na maçaneta e eu a fechá-la com a minha força.
            –Por favor, não insista... Procure outra pessoa, meu coração é de apenas um e ele não é você... – Os movimentos da maçaneta pararam.
            “Desconsolada, comecei a escorregar pela porta, me sentando no chão, aos prantos e soluços. Acho que acabei adormecendo e Azio me pôs na cama.”
            “No dia seguinte – eu deveria ter dormido uma noite inteira – acordei melhor comigo mesma. O dia estava melhor, o céu era límpido, não havia ninguém no meu quarto, me recostei na cama e contemplei aquele dia maravilhoso através da janela por algum tempo. Alguém bateu na porta e eu disse que podia entrar.”
            –Mamãe, mamãe! Bom dia! – Eu ouvia a voz de uma menininha. Quando olhei para o seu rosto senti meu corpo inteiro ficar gelado.
            –Quem é você?! Eu não sou sua mãe!!! Você não tem rosto!
            “A menina começou a chorar e saiu do quarto. Eu me apertei com as cobertas, sentindo cala-frios terríveis. Como alguém pode me deixar sozinha com aquela assombração por perto? Então aquele sujeito sem rosto entrou pela porta segurando a menina no colo e se aproximou de mim. Eu só conseguia pensar ‘O que está acontecendo aqui? Eu o mandei embora ontem!” Ele se aproximou, sentou-se na cama e tentou por a mão nos meus pés, que lhe estavam mais próximos. Eu recuei, olhando para o outro lado. A menina estava mais calma e começou a falar com ele:
            –Papai... – A menina ainda choramingava. – Por que a mamãe disse que não me conhece?
            –Não sei filha... – Ao ouvir isso, acabei gritando e me escondendo debaixo das cobertas. O sujeito se assustou, e abaixou a cabeça, aparentemente triste comigo.
            –Laryssa... Você não se lembra do dia em que te dei o anel que está no seu dedo? – Somente depois que ele me disse percebi, realmente havia um anel no meu dedo, um lindo anel por sinal. Era cravejado com uma pequena jóia cor-de-rosa e lindas flores entalhadas. Olhei do outro lado e reconheci um símbolo que fez com que eu me acalmasse.
            “Lentamente, fui saindo debaixo das cobertas. Aquilo parecia um sonho, eu estava chorando, mas não de medo, era de imensa alegria... Em seguida, eu acordei. Estava no centro de atendimento médico da ilha de Ev’ve, os Senhores de Castelo haviam derrotado os Caçadores Sombrios e a paz havia retornado ao multiverso. O meu destino já havia sido traçado, aquilo era apenas mais um sonho. Algo impossível... Até que eu notei algo em minha mão... Era o mesmo anel do meu sonho! ‘Mas, quem poderia ter colocado ele? Droga, por que temos dificuldade em lembrarmos os nossos sonhos?!’, eu estava pensando. Uma voz conhecida me disse algo, eu não havia entendido direito, minha cabeça ainda não estava plenamente sã, então ela repetiu:
            –Desculpe ter colocado o anel enquanto você dormia... Eu não aguentava a espera, estava ansioso demais pra você... – Eu me joguei em seus braços, não deixando que terminasse a frase.
            –Sim, eu aceito!
...

            –Bem, foi isso o que aconteceu, hoje sou a mulher mais feliz do multiverso! – Laryssa apertava as mãos com alguém do lado.
–Eu já morri uma vez... Não quero mais ficar longe dessa mulher incrível! – Os dois se beijaram.

...

            “É meu povo! Todo mundo aqui da ilha está muito surpreso com este inesperado presente dos Caçadores Sombrios. E não apenas isso, todos os Senhores de Castelo que morreram durante as caçadas reapareceram vivos e saudáveis! Queria saber se isso é uma das experiências do Doutor Tóxico... Infelizmente, eu não vou poder contar isso a vocês, esta será a minha última transmissão como repórter e apresentador do Informe do Multiverso. Agora tenho que ir, estão me chamando na sala do conselho...
...

Transmissão encerrada.